domingo, 13 de junho de 2010

Ausente


Quando eu nasci/ um anjo louco muito louco/ veio ler a minha mão/ não era um anjo barroco/ era um anjo muito louco, torto/ com asas de avião/ eis que esse anjo me disse/ apertando a minha mão/ com um sorriso entre dentes/ vai bicho desafinar/ o coro dos contentes/ vai bicho desafinar/ o coro dos contentes/ let's play that.
(Torquato Neto)

Há três anos e quatro meses, 414 postagens atrás, abri o RP com uma definição nada canônica da profissão. Jornalismo: desafinar o coro dos contentes. Segui firme nesta crença. E, no decorrer do período, insisti em outras: a necessidade da incorporação de novas tecnologias às redações; a mudança curricular nas escolas de jornalismo; a valorização do jornalismo analítico como forma de 'salvar ' o impresso (se é que precisa ser salvo...); a vocação iluminista do ofício; a aprendizagem constante e a experimentação.

Hoje, vemos que muitos jornais, até mesmo no interior, seguiram alguns dos caminhos discutidos por aqui, e os profissionais, aos poucos, aceitam o diálogo proposto pelas redes. O leitor, afinal, reclama o reinado que sempre foi seu de direito. As faculdades, por sua vez, depois da queda da obrigatoriedade do diploma, precisam justificar sua relevância. São agora obrigadas a seguir a máxima mcluhaniana: TROQUEM DE PELE!

Blogosfera
Quando comecei, blogs eram o suprassumo da produção online. Hoje, uma trivialidade. A capacidade de gerar conteúdo não somente abriu uma avenida de mão dupla no fluxo unidirecional da comunicação como também colocou em primeiro plano a necessidade de filtrar informações.

Passamos a entender que não somos mais emissores, mas... linkadores. Jornalistas e professores deixaram de ser pólos privilegiados de informação. O que nos confere crédito e alguma importância é nossa capacidade de conectar, contextualizar, explicar, analisar/sintetizar e refinar informações para o nosso público. Fazer, num de meus palavrões, jornalismo sináptico.

Ao iniciar o blog, queria me atualizar, aprender a usar ferramentas digitais e fazer contato com vida inteligente na galáxia pós-Gutenberg (ela existe!). Em sala de aula, tinha a convicção de que, mais do que aprender técnicas e cartilhas, era urgente assimilar um método de aprender a aprender, ou seja, os alunos teriam que desenvolver habilidades - e curiosidade - para se adaptarem a mudanças que viriam numa velocidade que minha geração adjetivaria com um clichê.

Nos últimos meses, porém, outras atividades me roubaram o tempo dedicado ao RP. Resistindo à tentação de requentar o caldo insosso da opinião rasteira (não obstante ser esta a dieta na maioria dos botequins cibernéticos) e recusando carregar o fardo do abandono, do esquecimento, só me resta justificar o silêncio aos meus caríssimos argonautas.

Voltamos em breve. Saravá, Hermes!

Foto: Trimegistro, no Centro.

domingo, 16 de maio de 2010

Habermas sobre internet

Se não estou enganado, passou batida pela imprensa brasileira a entrevista com Jürgen Habermas publicada 30 de abril no Financial Times, que só tive tempo de ler hoje. Nela, encontramos uma das raras reflexões do filósofo sobre o papel político da internet nas sociedades atuais, além de comentários sobre a crise fiscal na Grécia que "derreteu" o euro, um dos lastros da União Europeia.

O "gancho" da matéria foi um fake de Habermas no Twitter feito por um estudante brasileiro (!?!) que faz doutorado nos Estados Unidos com bolsa da Fulbright. Entre outras coisas, o "falso Habermas" postou comentários sobre a internet que estão na nota de rodapé de um artigo de Habermas (o verdadeiro), publicado em 2006.

Por que não consultar o filósofo sobre o assunto? Foi o que Stuart Jeffries fez por email.

Esfera pública
No clássico Mudança Estrutural da Esfera Pública, de 1962, Habermas trata da deterioração de uma esfera pública de debates no apogeu da era da comunicação de massa. Como analisaria essa mesma transformação em tempos de redes sociais e comunicação "horizontal" na web?

[Interessante como esta discussão também passa pelo jornalismo crítico como pilar da democracia e as dificuldades práticas (incluindo financeiras) de transportá-lo para a internet, que tanto conversamos por aqui.]
"A internet gera uma força centrífuga", diz [Habermas]. "Ela libera uma onda anárquica de circuitos de comunicação altamente fragmentados que raramente se sobrepõem. Claro que a natureza espontânea e igualitária de comunicação ilimitada pode ter efeitos subversivos em regimes autoritários [como no recente caso do Irã]. Mas a web em si mesma não produz qualquer esfera pública. Sua estrutura não é adequada para focalizar a atenção de um público disperso de cidadãos que formam opiniões simultâneamente sobre os mesmos temas e contribuições que tenham sido analisadas e filtradas por peritos. " [grifos meus]
O filósofo alemão emprega um termo leibniziano -- mônadas eletronicamente conectadas -- para descrever o caráter isolado do uso da internet que, por esta razão, não formaria uma esfera pública de discussão crítica, pelo menos não no sentido que Habermas confere ao conceito.

O fato da rede permitir uma participação direta por meio de comentários e ferramentas de publicação não significa que temos condições para construir um parlamento digital, uma ágora eletrônica. Ainda mais no Brasil, onde temos que suprir problemas de educação básica.

Escola de Frankfurt
Como bem lembra o jornalista, devemos ter em vista o contexto teórico no qual Habermas se insere, de uma crítica marxista que fez sucesso entre seus pares da Escola de Frankfurt. Mas, como dizia vovó, é sempre bom ouvir os mais velhos...

[Há pouca produção teórica relevante sobre o assunto (alguém quer um tema de pesquisa?) e, de modo geral, políticos brasileiros tratam as redes como se fossem TV ou jornal.]

Crédito da foto: Steve Pyke/ Getty

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Doze mandamentos da crítica

Crítica, do grego krinein, tem a mesma origem etimológica de crise. E, de certo modo, criticar é provocar uma crise sistêmica. Receber uma boa crítica - e me restrinjo aqui àquela de ordem intelectual - nos desloca da "zona de conforto" da crença. Dependendo de como é feita e de como a recebemos, obtemos ganhos de complexidade ou então sucumbimos. Por esta razão, criticar não é algo que se faça impunemente, sem consequências. Pode-se abortar uma potência criativa, ou então, testemunhar um belo parto...

Ao longo dos anos (nem tantos assim, pra ser sincero), observei como as pessoas reagem de formas variadas ao receberem críticas. E aprendi com alunos que, por vezes, destacar aspectos mais positivos nesse processo pode ser tão ou mais importante do que apontar as falhas. Há, portanto, uma dosagem correta na administração do fármaco.

Sem qualquer intenção de dar receitas, arrisco o esboço de alguns procedimentos, objetivando mais o diálogo e a reflexão do que o presunçoso título deste post me permite. Vamos a eles:

Para quem faz a crítica.
  1. Seja receptivo.
  2. Seja paciente, jovem padawan.
  3. Seja humilde, você não é um gênio da raça.
  4. Tenha equilíbrio: por pior que esteja a coisa, sempre há alguma qualidade para destacar e estimular.
  5. Seja duro, mas não perca a ternura, jamais.
  6. Tenha critérios objetivos: não se trata de questão de gosto, mesmo que envolva arte.
  7. Tenha fundamentos, para tudo o que afirmar.
  8. Se esforce para entender as finalidades do autor.
  9. Se esforce para ser claro.
  10. Exercite a ephoché - criticar não é fazer julgamentos de valor.
  11. Se não tiver tempo, melhor dar uma desculpa qualquer.
  12. Lembre-se: as melhores críticas não somente apontam erros, elas apontam horizontes.
Para quem recebe a crítica.
  1. Seja receptivo.
  2. Seja humilde, você não é um gênio da raça.
  3. Não economize esforços: se não estiver disposto a recomeçar do zero, é melhor desistir.
  4. Não reclame, nem chore: não vai adiantar.
  5. Por pior que seja a situação, sempre agradeça: quem fez a crítica ouviu você. Isso é raro.
  6. No pain, no gain: quanto mais colorido, rabiscado, amassado e escarrado seu paper retornar, melhor.
  7. Se a crítica for arrogante, ignore. Recolha os cacos e siga em frente.
  8. Esteja preparado para o pior.
  9. Se receber somente elogios, acenda a luz vermelha.
  10. Se o paper voltar incólume, acenda a luz vermelha.
  11. Receba bem os elogios, você merece, jovem padawan.
  12. Corra atrás de todas as referências bibliográficas sugeridas. Siga o coelho, Alice!
E lembre-se: vivemos na periferia do universo; habitamos um monte de lixo estelar à deriva na borda da galáxia; somos inquilinos barulhentos, recentes e com prazo de locação a expirar; e perdemos feio para as bactérias no jogo da evolução. E ainda: a razão algo muito escasso e demasiado falho, e às vezes só atrapalha nossa existência. Mas é com ela que pesamos as estrelas.

Foto: visão do cosmos, by Hubble (NASA)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Democracia e internet: contrapontos

Muito boa esta entrevista com o sociólogo italiano Massimo di Felice publicada no Estadão de ontem, sobre política e redes sociais. Ele vai direto ao ponto: a internet permite relações horizontais mais próximas do conceito original de democracia (e isso só ficou claro recentemente, com a chamada web 2.0):
Com a internet, passamos da democracia opinativa para a democracia colaborativa, na qual todo cidadão é chamado não a mudar o mundo, a fazer revolução, nada disso. Ele é chamado a ter um impacto na sua realidade próxima. Se olharmos para o teatro grego, os livros, os jornais, o rádio e a TV notamos que o modo de transmitir as informações se manteve constante. O ator de teatro fala, o público ouve em silêncio; no final aplaude ou vaia, ou seja, opina. Na TV é a mesma coisa. Quando assistimos a um debate eleitoral os candidatos falam e nós acompanhamos tudo passivamente e depois vamos votar - opinar - sobre propostas e programas de cuja elaboração não participamos. É a democracia baseada na opinião. O cidadão é cidadão na medida em que ele opina de quatro em quatro anos. A internet inaugura um tipo de democracia qualitativamente diferente.
O El País publicou ontem uma longa entrevista com Umberto Eco, em plena forma aos 78 anos. (Temos que explorar esses velhos mestres ao máximo, Chomsky, Habermas..., quantos autores que ainda lemos nos dão o privilégio de continuarem na ativa?) Entre outras coisas, Eco fala também de política, democracia e internet:
(...) en ciertos países, como China, es un instrumento fundamental para poder pasar informaciones y noticias que de otro modo no llegarían. En otros países donde estas noticias pueden llegar, puede ser una forma de encerrar a los jóvenes en una soledad totalmente virtual, fuera de la realidad. Pero Internet no es una sola cosa, es muchas cosas. Es como un libro: ¿un libro es bueno o malo? Si pone Mein Kampf es malo, si pone La Biblia es bueno. Y lo mismo Internet: es un instrumento que en muchos casos ha cambiado nuestra vida, nuestra capacidad de documentación, de comunicación, etcétera. Y en otros casos se presta a difundir noticias falsas. Uno nunca sabe si lo que le llega a través de Internet es verdadero o falso.
***
Os papers do 11th International Symposium on Online Journalism, realizado no final da semana passada, estão disponível para download em PDF (em inglês).

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Apontamentos sobre ética e jornalismo

Considero a ética a questão mais difícil, mas também a mais importante em jornalismo. Mais difícil eu já digo o porquê. Mais importante porque um profissional desonesto pode abalar o maior bem que uma empresa jornalística pode ter, que é a sua credibilidade. Isso sem falar nas consequências para a sociedade. Por isso, encorajo e admiro colegas como o Rogério, que dedicam a carreira a estudar esta área.

A revista Cult deste mês trouxe um dossiê sobre ética que inclui um texto muito bom, claro, do professor Franklin Leopoldo, além de duas páginas tratando da cobertura do terremoto no Haiti, do ponto de vista ético, of course. O que acho particularmente curioso é como jornalismo e filosofia enfrentam dilemas muito parecidos e pouco conversam entre si.

Crise
O problema hoje, em filosofia, é como construir uma ética que seja ao mesmo tempo intersubjetiva, ou seja, válida no âmbito das relações (com as outras pessoas, com o meio ambiente); e universal, isto é, aplicável em todas as situações, respeitando, ainda, pluralismos morais, políticos e religiosos. Desde que Kant aposentou Deus, Darwin, Freud e Schopenhauer deram aviso prévio à razão autônoma e Nietzsche turvou o manancial dos valores, a firma entrou em crise.

O jornalismo vive semelhante drama. Temos uma série de códigos deontológicos, que compõem aquilo que Caio Túlio Costa chama de moral provisória, e lidamos no dia-a-dia com situações limites que desafiam a validade de uma conduta de caráter universal. Como resolver?

Alguns defendem conselhos para julgar o comportamento profissional, da mesma forma que médicos e advogados têm os seus. Mas num país que passou por duas décadas de ditadura militar e é assombrado pelos espectros de Lênin, todo o controle externo soa como censura. E o perigo é real.

Banquete
Acredito que de um diálogo com a filosofia, que pensa esses problemas há mais de dois mil anos, podem surgir soluções interessantes. Um dos caminhos, a propósito, passa pela instância comunicativa. Apel e Habermas têm trabalhos a respeito de uma ética comunicacional (sobre isso, leiam a tese do brother Josué). O 'porém' desta história é que isso pressupõe, para dar certo, que os agentes não sofram nenhum tipo de coação social ou política para estabelecer consensos. E sabemos que aquela definição infantil de comunicação como 'tornar comum e bla-bla-bla' não funciona. Na prática, comunicação é uma forma de poder (leiam Aula, de Barthes, só pra começo de conversa).

Não obstante, tanto a ética comunicativa quanto outras éticas contemporâneas oferecem um self service de teorias esperando para serem digeridas e metabolizadas.

Solvet et coagula, Hermes.

Reprodução: Escola de Atenas (1509–1510), de Rafael.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Crime tem endereço completo

Em fevereiro, falávamos sobre o papel da estatística de crimes na cobertura policial. Dizia o seguinte:
Deve-se reconhecer os avanços em transparência de dados que, é bom lembrar, são passíveis de confronto - no caso de homicídio - com o DATASUS e as secretarias de Saúde municipais. Mas sempre acho que poderiam ser mais detalhados. Os softwares das delegacias permitem isso. Saber, por exemplo, que ruas têm mais roubo de carros. Isso sem falar na "caixa preta" que são os índices de esclarecimentos de crimes.
Bom, taí a matéria do Estadão de hoje, de Marcelo Godoy. O software ao qual me referia se chama Infocrim, e começou a ser instalado nas delegacias de polícia há uns dez anos, se não me falha a memória. Acontece que esses dados não são divulgados, por motivos políticos, não de "segurança da investigação". Para consegui-los é preciso uma fonte de confiança dentro da polícia.

É isso aí, tem informações que precisam ser 'roubadas' (pelo menos até a lei de acesso entrar em vigor.)

No mesmo post de fevereiro, dizia o quanto as estatísticas eram importantes e como ajudaram cidades americanas a virar o jogo contra a violência.
Transparência é essencial não somente por permitir cobranças e definições de políticas públicas como também para aproximar polícia e imprensa da comunidade.
Ponto final.
(mais sobre o assunto neste post).

P.S.: Tem sido impossível manter a rotina de atualizações diárias por conta de outros compromissos, mas seguimos em frente. Paciência, jovem jedi.

sábado, 17 de abril de 2010

Boas perguntas, nenhuma resposta

Notícia não precisa ser sempre ruim. Mas, em geral, quanto pior, melhor. Não surpreende, então, que a crise do jornalismo tenha virado assunto em jornais. E isso não é de hoje.

As entrevistas com o fundador e diretor do El País, Juan Luis Cebrián, publicadas no Estadão e no Globo deste sábado, não trazem nada de novo. Cebián, que esteve no Brasil para lançar O Pianista no Bordel, não dá receitas. Nem poderia, por motivos estratégicos. Apesar disso, é interessante como revela a preocupação das empresas, pontuando os problemas do jornalismo face às inovações tecnológicas e seu papel político na sociedade contemporânea.

Estranho... o mercado discute questões conceituais enquanto universidades miram na prática. Uma melhor sintonia nessas duas esferas da profissão poderia render boas respostas.

Foto: Objetiva/ divulgação.