sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Banalidade do mal

Num estudo clássico, Eichmann em Jerusalém, no qual cobria o julgamento do carrasco nazista, a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) cunhou a famosa expressão banalidade do mal. De acordo com ela, o nazista acusado de crimes de genocídio era apenas um burocrata que cumpria ordens e não tinha capacidade de julgar a dimensão ética de seus atos. As atitudes, para ele, seriam desprovidas de valores morais.

Me parece conveniente lembrar Arendt para tentar entender o último escândalo político em Brasília. Flagrados por câmeras ocultas, os políticos respondem de modo padrão, negando fatos e agindo como se nada houvesse de errado em suas ações. É um comportamento explicável no contexto das Casas políticas - Executivo e Legislativo - que se tornaram balcões de negócios. O procedimento normal é receber verbas de empresas para a campanha e depois fraudar licitações para amealhar verbas públicas.

O que que neste caso parece novo é a oração que os funcionários públicos fazem depois da partilha. Kant dizia que Deus era uma espécie de artifício necessário para regularmos nossa conduta, um horizonte ético, por assim dizer. Esse Deus continua sendo uma fábula, só que agora atende a interesses pessoais ou dos "escolhidos". O mal está na mediocridade.

* * *
Não vejo outra forma de mudar a política senão reforçando aquelas instâncias fiscalizadoras vilipendiadas pelo presidente. No caso do jornalismo, acredito que, fora dos grandes centros, seria preciso criar canais alternativos de financiamento (além dos tradicionais), para garantir a independência dos veículos no cumprimento de suas funções.

Foto: Hermes.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Personas

"Me faça parecer bem na foto", pedia um dos líderes através das lentes de Platon, fotógrafo da New Yorker, para esse incrível ensaio multimídia, Retratos do Poder. As fotos são geniais, e deixam entrever o exótico em Evo Morales, o caricatural em Óscar Arias, a sedução em Berlusconi. Estão lá presidentes, primeiros ministros, democratas, ditadores, teocratas e revolucionários. Cada foto vem acompanhada de comentários de Platon sobre os bastidores do encontro. Será possível perscrutar o poder por detrás dessas máscaras?

domingo, 29 de novembro de 2009

É a linguagem, estúpido! #2

Alertado pelo compadre Abs Moraes, fui ler o texto de Steven Grant em Permanent Damages. O que o autor escreve vai ao encontro do que teorizamos e confabulamos sobre arte. Com a vantagem de SG expor de forma clara, indo direto ao ponto.

SG fala sobre HQs, mas vale para qualquer outra produção artística -- cinema, música, literatura, etc. São dois pontos principais:
  • Experiência: O que uma arte proporciona (mídia de modo geral, mas vamos com calma) são experiências sensórias e cognitivas. É nessa capacidade de provocar efeitos que ampliem e refinem nossa percepção da realidade que reside o potencial criativo e inovador de uma obra. Diz SG:
Grandes quadrinhos, os quadrinhos realmente grandes, não contam simplesmente bem uma história. Quadrinhos realmente grandes proporcionam uma experiência para o leitor e, preferivelmente, uma experiência que ele não teria em nenhum outro lugar.
  • Linguagem: O elemento que provoca essa experiência é a linguagem, a forma, ou, como diz SG, a narrativa:
Narrativa em quadrinhos não é entendida muito bem. Na maioria das HQs, a narrativa vai do minimalismo ao mecânico, sendo a última o modo dominante nas HQs "comerciais", e a primeira, dominante nas HQs de "arte". Narrativa não é exatamente história, não é o plot. Não é exatamente contar uma história. É a maneira como a voz autoral -- em quadrinhos, isso significa ambos, escritor e artista -- interage com a audiência e guia sua percepção do trabalho.
Não é, portanto, a história em si, mas COMO você conta a história, manipulando a linguagem. Você só pode proporcionar experiências inovadoras (imersivas, segundo o autor) ao seu público se jogar com a estrutura. Isso não quer dizer que boa história e desenhos competentes sejam irrelevantes, mas que não são o bastante.

Troquem de pele!

Agenda setting

Gangues do Rio. Matéria publicada hoje no The Guardian, com texto do correspondente de guerra Jon Lee Anderson e fotos de João Pina, fotógrafo português. Título: "É como na Idade Média... não há outro propósito senão viver outro dia".

Foto: João Pina.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Perec

Encontrei num sebo hoje à tarde uma obra raríssima: A Vingança do Triângulo, de Florence Ballard, escritor considerado o precursor no gênero SciFi. Nunca ouviu falar? Nem poderia, o livro não existe. Sequer minha sebosa aventura é real.

Trata-se de uma das sacanagens de Georges Perec em A Vida Modo de Usar: Romances, provavelmente uma das melhores coisas que descobri esse ano graças a uma bendita reedição (de bolso) da Cia das Letras e uma providencial resenha pautada pelo Rascunho. Coisa fina.

Fazer resenha crítica, como qualquer outro texto, exige disciplina, apuro e atenção aos detalhes. Mas, como qualquer outro texto, depois que assimilamos a estrutura a coisa torna-se mais funcional. As melhores são feitas por quem entende do assunto na prática, ou seja, escritores, no caso de livros. Essa de Stephen King sobre a obra de Raymond Carver, publicada na semana passada pelo The New York Times, e essa outra, do crítico James Wood sobre Paul Auster, na The New Yorker dessa semana, por exemplo.

* * *
A propósito, a de Perec sai na edição de dezembro. E Florence Ballard era uma das cantoras dos Supremes. Até onde sei, nunca escreveu romances.

Oh, que década de m...

A Time não titubeou: lascou na capa dessa semana que 00 foi uma década do cão! Não é para menos, pelo menos para os americanos. Começou com a reeleição de um dos piores presidentes de sua história e os ataques às torres gêmeas; seguiu com duas guerras sem solução no Oriente e, internamente, a tragédia do Katrina; e terminou com a pior crise desde 29.

Como nós, brasileiros, avaliaremos 00?

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Chris Ware

Sabe aqueles trampos que você bate os olhos e "putz, caceta!"? Então. Chris Ware é o cara. E a boa notícia é que a Cia das Letras publica dele, este mês, Jimmy Corrigan, o garoto mais esperto do mundo. Não é preciso dizer mais nada. The rest is noise.

Ilustração: "Building Stories", Chris Ware.