sábado, 27 de outubro de 2007

Receita de jornalista scholar II


Durante quase dois anos, universidades e sindicatos de jornalistas de cinco países europeus foram parceiras no projeto “MediaDigIT- Digitalização no Setor da Comunicação: Um Desafio para a Europa”, cujo objetivo foi desenvolver estratégias para uma formação continuada de jornalistas, frente à crescente digitalização do setor.

Os resultados foram apresentados ontem na Casa da Imprensa, em Lisboa.

Segundo matéria publicada no Sindicato dos Jornalistas de Lisboa, durante o evento o diretor do Cenjor (Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas), Fernando Cascais, afirmou que vai disponibilizar em breve oito perfis de formação profissional levantados pelo projeto. Os perfis, segundo ele, são destinados a jornalistas formados que buscam atualização no mercado. A conferir.

É interessante ver o que nossos colegas europeus pensam sobre o assunto. Para o presidente da Mesa da Assembléia Geral do Sindicato dos Jornalistas de Lisboa, José Luiz Fernandes, os jornalistas precisam repensar práticas e resistir aos efeitos maléficos da digitalização, que seriam:

  • extinção dos postos de trabalho, principalmente de jornalistas mais experientes (e bem remunerados);
  • acúmulo de funções, acompanhado de baixos salários e, muitas vezes, sem vínculo empregatício;
  • baixa qualidade na produção, perda da autonomia editorial e ética.
  • padronização do material noticioso - que é embalado em múltiplas plataformas - e das interpretações dos fatos, criando um produto indiferenciado.
É uma equação. Matérias de press releases e agências são empacotadas por jornalistas menos experientes, mal pagos e freelas (sem qualquer juízo de valor aos freelas, por favor), que substituem repórteres mais velhos e experientes. E, com medo de perder o emprego, abrem mão da autonomia.

Em última análise, quem perde é o leitor e, em última instância, a democracia.

Tempero
Já o diretor do Centro de Investigação para Tecnologias Interativas da Universidade Nova de Lisboa,Carlos Correia, faz uma leitura contrapondo mass media (meios de comunicação de massa) e self media, que representaria o fenômeno da web 2.0.

Em sua definição, self media "são meios individualizados de comunicação digital: telefones móveis, pda's, computadores; são o hardware do sistema, sempre em rede."

O que ele propõe, ao contrário de Fernandes, não é resistência, mas adaptação. Para isso, as empresas de comunicação devem criar modelos de gestão e negócios que contemplem blogs, RSS, etc.

Em suas palavras:

"É para a blogosfera que grandes volumes de publicidade se deslocam a uma velocidade crescente. Esta será a razão da crise instalada em muitas empresas de comunicação que não acompanham a mudança."

"A (sic!) Google é uma empresa cuja base de dados se especializou em pesquisar, tratar, gerir e retirar lucros dos dados que as pessoas e as empresas publicam na Internet (...) Saber federar interesses, organizar redes de pessoas e manter estratégias multipolares de informação é posicionar-se do lado dos vencedores."

Em outras palavras, juntem-se a eles!

Molho
O Ponto Media publicou esta semana o link para a edição de outubro dos Nieman Reports, com artigos sobre o ensino de jornalismo na era digital. Não li ainda, mas já salvei. Em inglês.

Também foi notícia ontem o anúncio de que o Google vai fazer da China um laboratório para web móvel. Ou seja, a empresa estuda como vender produtos para pessoas que não usam mais o desktop (computador de mesa) para acessar a internet, mas aparelhos celulares. A China é o segundo mercado em internet, só perdendo para os EUA.

Vem novidade por aí. Ou, como diria Norman Mailer, "vem aí uma tempestade de merda".

Reprodução de A ceia em Emaús (1601), de Caravaggio.

domingo, 21 de outubro de 2007

Receita de jornalista scholar


Jornalismo se aprende na prática. E a melhor escola é a redação. A faculdade fornece um conjunto limitado de técnicas - de apuração, organização de dados e redação - e, se tiver sorte (e interesse), aquilo que chamam de "bagagem cultural".

Mas nada prepara o foca para o choque de cair numa redação de jornal: cinco pautas pra apurar, chefe de redação achando tudo que você faz uma porcaria e o temido "pescoção" de sexta chegando, sem falar em vigílias em porta de presídios e plantões de domingo... Aí sim, terá provado dessa cachaça. Faz mal, mas vicia.

Mas esse jornalismo feito "na marra" encontra logo seus limites. Vivemos um momento de transição, de incertezas e apostas. A convergência de mídias, o acesso a fontes diversas de informações, os leitores mais participativos e exigentes, novas ferramentas de apuração e plataformas de publicação, tudo isso exige um profissional com um perfil mais scholar.

Eugênio Bucci, no quarto de último artigo da série "Responsabilidade da Imprensa", Jornalismo precisa de formação continuada, publicado na última terça no Observatório da Imprensa, faz uma defesa do jornalismo de precisão, que se faz com estudo.

Sem isso, argumenta Bucci, o jornalismo estará deixando de cumprir sua responsabilidade social de fiscalizar os poderes públicos.

O texto começa assim:

Persiste em parte das redações, ainda, a tristonha presunção de que o jornalismo se faz e se aprende "na prática": se o sujeito leu uns livros bons, tem vocabulário acima do comum, é curioso e esperto, vai brilhar. Assim é que esse ofício se firmou e se reproduz, com base na ilusão de auto-suficiência. Talvez ela bastasse até meados dos anos 1970, mas hoje é apenas vã. O jornalismo, como as demais atividades, impõe a seus praticantes que estudem.

Pego carona no brilhante artigo de Bucci para questionar qual será o papel da universidade na formação desse profissional. Será que as universidades fornecem condições para renovação da prática do jornalismo, que atenda o mercado e as perspectivas da profissão e, além disso, suscite, de alguma forma, a formação continuada?

Forno aquecido
Sejamos sinceros, universidade, com suas exceções, apenas repete um modelo defasado de ensino no Brasil, baseado em grades estanques, sistema de notas e listas de chamadas, que em nada ajuda nessa tarefa. Pelo menos conheço alguns colegas pedagogos que concordam comigo nesse ponto.

Como resultado, o aluno fica de saco cheio e, quando pega o diploma, não quer mais ouvir falar de faculdade. E, muito menos, de estudo.

Alguma coisa está errada nisso tudo.

Pois é justamente nesse ambiente universitário que deve vingar o jornalista scholar. Para isso, aí vão umas sugestões muito modestas de uma receita rápida de preparo:
  • Aprendizado como rotina.
  • Experimentação e pesquisa como ofício.
  • Domínio de novas técnicas de investigação.
  • Multifuncionalidade em mídias digitais.
  • Domínio de linguagens audiovisuais.

Cobertura
Ser autodidata é legal, a maioria dos blogueiros o são, não é mesmo? O que a academia pode fornecer são métodos que facilitem o aprendizado e, mais do que isso, estimulem o aprendizado. E também - importantíssimo!- a experimentação, não meramente a reprodução mecânica do mercado.

O que acontece quando a redação precisa mais do que "umas pingas na cabeça e um lide na mão"? Quando faz diferença entender que "computador não é máquina de escrever", "celular não é telefone", que precisamos relacionar fatos, buscar notícias além do press release, saber o que é RSS, blogs, bookmarking, YouTube, base de dados, e, mais importante, como isso tudo serve para fazer jornalismo. What?

Sirva quente!

Reprodução de A Leiteira (1660) de Jan Vermeer.

domingo, 14 de outubro de 2007

Matéria fria

Li hoje cedo a edição da Veja desta semana sobre o filme "Tropa de Elite", que assisti ontem à noite no cinema. Que decepção!

São exatas 12 páginas de muito editorial e nenhum jornalismo. Triste ver escorrendo pelo ralo uma revista que já foi símbolo de jornalismo investigativo, tão importante na época da ditadura, na era Collor e, mais recentemente, no escândalo do mensalão.

O que sobrou? Uma verborréia antipetista, cartilha do MST às avessas, chata pra cacete.

Não se prestaram a fazer uma cobertura decente sobre o filme, sobre a rotina do Bope, o que fosse! Não ouviram sequer UM especialista. Amparados por uma pesquisa (sem dar detalhes de como foi feita), defenderam pontos de vista óbvios, estilo programa policial da tarde, e não acrescentaram nada de útil.

Pombas, CINCO bons repórteres e TRÊS excelentes articulistas pra repetir a velha ladainha "bandido bom é bandido morto"?? Não, devo estar enganado, me ajudem.

Da próxima vez, compro a Playboy. A Fran viajou mesmo...

sábado, 6 de outubro de 2007

Cidadão Kane no banco dos réus


Venceram ontem as concessões de 28 emissoras de TV e 153 de rádios brasileiras, incluindo afiliadas da Globo, Record, SBT e Bandeirantes. No mesmo dia, o movimento “Concessões de rádio e TV: quem manda é você”, que pede transparência no processo de renovação das concessões (por mais 10 anos para rádio e 15 para TV), fez protestos por todo país.

Particularmente, não me chamem pra fazer passeata. É bonito para aparecer na TV, mas não sejamos ingênuos achando que a Globo e a Record irão dar destaque para isso. Ainda mais um evento com "meia dúzia de gatos pingados" e com faixas do tipo "Não somos só bunda e peito" (!!!!!!!!!). Confiram as fotos da av. Paulista no Ciranda.net.

Deixando na gaveta o bonezinho de Che Guevara, a discussão é séria. A outorga de serviços de radiodifusão depende, em parte, de concessões, que precisam ser aprovadas pela Câmara dos Deputados e Senado Federal.

Ocorre que os próprios parlamentares são concessionários e, pior, participam da CCTCI (Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática) e da Comissão de Educação do Senado Federal, às quais competem apreciar os processos.

O artigo 54 da Constituição Federal afirma que deputados e senadores não podem "firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público, salvo quando o contrato obedecer a cláusulas uniformes", sob pena prevista de perda de mandato.

Por essa razão, muitos usam "laranjas" para controlar empresas de comunicação em seus estados. Um dos processos contra o senador Renan Calheiros é dessa natureza, lembram?

Caso Record
Recentemente, a inauguração da Record News, primeiro canal de notícias da TV aberta brasileira, trouxe mais tempero à discussão. No evento de abertura, teve discurso pela "democratização da mídia" (Lula) e contra o "monopólio" das mídias (Edir Macedo, em referência à TV Globo).

Acontece que a Record News usa a concessão da Rede Mulher, que venceu em agosto de 2005, além de ser o segundo canal de TV aberta em São Paulo de posse de uma empresa, contrariando o decreto 52.795/63, que legisla sobre o assunto. Irregularidades como essas são comuns no ramo, o que justifica nossas queixas.

***

Não se trata de cassar concessões, mas de tornar o processo transparente para a sociedade e, em segundo plano, debater a democratização, que ocorrerá inevitavelmente com a digitalização das mídias. São assuntos de interesse público que não podem ficar restritos ao interesse obscuro de parlamentares. Muito menos à sanha da insidiosa turba dos bonezinhos de Che Guevara.

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