domingo, 25 de novembro de 2007

A arte da sedução no jornalismo em RSS

Poucas experiências retratam de modo tão exemplar o conceito de self media como os feeds RSS. Uma coisinha à toa que, do mesmo modo que as banais portas USB, alteram os processos de comunicação social. E foi com essa ferramenta, o RSS, indispensável em nossas vidas online, que me dei conta do quanto precisamos refinar nossa arte de seduzir leitores - principalmente leitores de blogs.

Os artifícios para conquistar os leitores da web já foram discutidos com muito mais competência por blogueiros profissionais. Proponho pensar nos feeds mais especificamente no contexto jornalístico, em como tornam imprescindível um título relevante e um lide bem construído.

Feeds RSS são sintomas da mudança de uma esfera comunicacional mass media para self media (ou qualquer outra denominação semelhante que temos empregado para descrever isso).

Este lance de self media é interessante porque traz uma imagem de self service, que não tem nada a ver com o significado do conceito, mas é bem bacana. As mídias atuais seriam um imenso self service e delivery.

Explico.

Antes era assim. Você ia à banca e comprava um jornalão. Marcava hora com o Sérgio Chapelin e Cid Moreira para assistir ao Jornal Nacional. Acordava bem cedinho para ouvir o Gil Gomes. Era este o recorte midiático de mundo de nossos pais. O marmitex da comunicação.

Hoje ainda temos o prato-feito. Mas, além dele, milhares de sites noticiosos, blogs, vídeos em formato digital e podcast do mundo todo à disposição.

Com meia dúzias de sites para visitar diariamente, tudo bem. Você controla o fluxo. Mas a partir do momento em que os links pulam casas decimais, o fluxo passa a controlar você. E aí, ou você vira um baudrillardiano - dizendo que informação total é igual a informação zero - ou recorre aos feeds.

Tudo em ordem
O objetivo dos feeds RSS é facilitar o acesso à páginas na web. É a maneira mais econômica de se consumir informações atualmente. Ao invés de ir até a informação, ela vem até você. Ao invés de entrar em cada site, todos os dias, os sites "avisam" quando são atualizados. Simples. É só escolher o sabor e fazer o pedido.

O ponto-chave da internet é organização. Quando os endereços viram uma bagunça na barra de favoritos, é hora de organizar tudo em tags no Del.icio.us. Muito bem. Mas quando passamos a perder muito tempo para ler todos os blogs que postamos, é hora de apelar para um Google Reader da vida. Ou Netvibes. Ou Bloglines.

Acontece que, mesmo nos leitores de feeds, os blogueiros precisam disputar a atenção em meio a dezenas, centenas de atualizações diárias. Como resultado, são lidos os que chamam a atenção do freguês. Pelo título e resumo da postagem, por exemplo.

Lide, mas nem tão clássico assim
Leitores mais novos, em idade, não têm mais o tempo e a paciência dos antigos assinantes de jornais. Bem ou mal, estes últimos compraram o jornal e têm a manhã de domingo livre para ler até o obituário e as palavras-cruzadas, se quiserem.

O leitor na web, não.

Ele precisa ser atraído com títulos que revelem o real conteúdo do texto, que sejam afirmativos e despertem sua curiosidade, sem enganá-lo. Valem, portanto, as mesmas regras do jornalismo. A dificuldade, porém, é maior.

Voltamos ao velho lide. Ou quase isso. O "lidão" mecânico, clássico, pode ser substituído por algo mais sutil, que coloque o assunto logo de cara mas que construa "ganchos" que fisguem o leitor ao final de cada parágrafo. Sedução é isso, né? Tem que deixar para tirar a calcinha por último, não sair mostrando a xoxota.

(Confesso que nunca gostei de "nariz-de-cera". Imagine essa aberração em feeds).

Sendo assim, meus caros, desenvolver uma linguagem ágil, leve, precisa e dinâmica é tarefa dos jornalistas do século 21, da era RSS, da era das self media. Um grande barato!

p.s. Para quem não conhece, este vídeo do You Tube, legendado, é uma introdução didática e divertida ao mundo dos feeds RSS.

domingo, 18 de novembro de 2007

Sobre amor e bolachas recheadas

Lucas me acorda pedindo chocolate. "Fruta, primeiro", lembro. "Então, quero banana". "Com aveia?". "Não". Depois de comer banana - que acabou sendo com aveia - a política de negociações é retomada:

- Mamãe comprou chocolate de carrinho no supermercado?
- Não, mas comprou bolacha recheada (digo, com um pingo de culpa pela promessa não cumprida).
- Então me "mostra".

Que diplomacia: me "mostra". Caso se aplicasse o mesmo tratamento às mulheres, com a honestidade que faltamos às bolachas recheadas, não existiriam filhos.

- Não, agora não é hora de comer chocolate - digo.
- Por que?
- Humpf... pergunta pra sua mãe se pode.

Transferência de responsabilidade. Normal neste mundo da política.

O lobista chocólatra foi e voltou de sua missão. Me olhando fixamente, saiu com essa:
- Ela disse que PODE...

"Nãããoooooo!", ouço a voz abafada vinda do gabinete da ministra do interior.

- ... depois do almoço - completa a frase, rapidamente, antes que as tensões provocassem o fim das negociações com possíveis embargos.

E assim é todos os dias.

domingo, 11 de novembro de 2007

Post scriptum para Mailer


Norman Mailer morreu. Saiu em todos os jornais. Na manhã de ontem, aos 84 anos, em Nova York.

Confesso minha ignorância em Mailer. Foi um daqueles escritores "obrigatórios" que não li na faculdade. Se era um escritor excepcional ou mediano, não sei dizer. Era, posso dizer com certo grau de sobriedade que ainda me resta nesta madrugada de domingo, um fanfarrão.

Adorava aparecer. Não demonstrava um pingo de modéstia ou comiseração pelos críticos e desafetos. Irônico e debochado, foi candidato a prefeito de Nova York. Rebelde, foi preso por protestos contra a Guerra do Vietnã. Entre uma polêmica e outra, escrevia desesperadamente, copiosamente, sobre os EUA.

Não li Mailer. Em compensação, li Gay Talese, Tom Wolfe e Truman Capote. Esses caras atearam fogo no rastro de gasolina deixado por Mailer e outros escritores, para conspirar o que ficou conhecido como new journalism.

Nos anos 60, diziam, o jornalismo estava chato pra cacete. Matérias burocráticas, monótonas, que provocavam , quando muito, um bocejo medonho no leitor (e, hoje, caso vingue a homicídio premeditado do jornal impresso, não culpem a internet, mas a pura chatice do material impresso).

Neste clima enfadonho, escritores que labutavam em redações de jornais e revistas norte-americanas começaram a usar, com certo método, técnicas literárias para escrever romances de não-ficção.

No Brasil, a extinta revista Realidade, a melhor publicação do gênero já existente, abusou dessa técnica. A atual Caros Amigos também transa essa parada. Não fosse seu discurso esquerdista datado, levaria ao orgasmo.

Ao empregar artifícios da literatura - como explorar o cenário, trabalhar diferentes pontos de vista e diálogos, atentar para idiossincrasias dos personagens, etc -, esses autores pretendiam ganhar o leitor pelo bom gosto, pelo prazer estético da leitura. E assim, dar algo mais da realidade do que caberia em um lide.

Um bom exemplo do que estou dizendo, e uma boa introdução ao gênero, é A Sangue Frio, de Truman Capote (aliás, o filme é simplesmente imperdível!). Você lê a história e pensa: "mas não é possível! Ele inventou isso! Como ele poderia saber o que o personagem estava SENTINDO???".

A grande sacada era a observação, os detalhes, as minúcias. Tudo isso combinado com o talento, que é coisa que não se aprende, se desenvolve. Jornalismo literário ou new journalism é reportagem bem escrita e muito bem apurada. Ponto final.

Existe lugar hoje para o jornalismo literário? Seria o lugar de honra das reportagens especiais em revistas e jornais, mas é praticado em livros, como os de Caco Barcellos, Fernando Morais, Ruy Castro, entre outros.

Chega. Vou tomar mais uma Bohemia em homenagem a Mailer.

Saravá, meu velho!

sábado, 3 de novembro de 2007

Replicantes

Com o título "Cópias mal disfarçadas", a ombudsman do Uol, Tereza Rangel, publicou na última quarta-feira uma singela análise do jornalismo feito "nas coxas". Ele comparou, lado a lado, duas matérias de agências de notícias (Agência Brasil e Agência Câmara) com matérias publicadas no UOL com o crédito "da Redação". Irmãs gêmeas.

O que virou rotina nas redações é, na verdade, um engodo. Uma empulhação. Vende-se informação oficial embalada como informação imparcial de um órgão de imprensa que o leitor/consumidor confia. Palavras da ombudsman:

"Ao se apropriar de material alheio dando o crédito à 'Redação', o UOL engana o leitor. Pior, sem transparência, fica dependente editorialmente da visão do órgão público, por mais que o jornalismo praticado pelas duas agências lute por fazer um jornalismo isento e independente. E, mais, não torna a leitura do portal um ato único e singular."

Tereza também revela - não justifica - que o motivo da lambança é a falta de repórteres no portal. Consequentemente, sobrecarga de trabalho. Sabemos como é.

Os replicantes são uma verdadeira praga, principalmente em sites e portais noticiosos, onde a pressa em dar a notícia gera um discurso homogêneo e pasteurizado.

Pior: paga-se gato por lebre.

Quando acessamos um site, portal ou blog estamos buscando informação de qualidade, tratadas com o máximo de isenção e postura crítica que se espera de um profissional. Ao receber um release, a primeira coisa que o repórter faz é checar a informação e, sempre que possível, apurar in loco. Nem sempre é possível. Porém, o que deveria ser uma exceção virou procedimento padrão.

Se é para ficar reproduzindo releases, chamem o contínuo da firma.

Debate sobre jornalismo digital
A ANJ (Associação Nacional dos Jornais) recebe até a próxima sexta-feira (dia 09) inscrições para o evento “Os Jornais e a Internet – para onde aponta o futuro?”, que será realizado no dia 13 de novembro no auditório da Folha de S. Paulo. Em pauta, o futuro do jornal na internet.

Para professores e estudantes, segundo a associação, será cobrado R$ 50, mas somente para os 20 primeiros inscritos! É bom conferir. Para não-associados, R$ 180.

Em pauta:
  • convergência de mídias;
  • mudanças no perfil profissional;
  • novas ferramentas de produção jornalística;
  • emprego de novas linguagens;
  • e o famigerado CLA (Conteúdo de Livre Acesso).
Interessante...

Inscrições e detalhes da programação, endereço e horários na página do evento.

Com limão
Estadão ataca de web 2.0! Acessem o Limão e me digam porque o velhinho anda tão assanhado.