quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O que os editores executivos têm a dizer sobre o futuro do jornalismo

O Editors Weblog iniciou hoje a publicação de uma série de entrevistas com editores executivos de alguns dos principais jornais do mundo (nenhum brasileiro na lista...) a respeito do futuro do jornalismo. A primeira é com o editor executivo do WashingtonPost Jim Brady (leia aqui).

Na entrevista, Brady discorda dos "nostradamus" que prevêem o fim do jornal impresso para 2014 e afirma que os grandes jornais norte-americanos - New York Times, Los Angeles Times e o próprio Post - continuarão na ativa. Por outro lado, segundo ele, o custo baixíssimo na web e os altos custos no impresso farão do jornalismo digital a única alternativa para pequenas e médias empresas nos próximos 5 anos.

Também contrariando alguns teóricos, o editor executivo não vê grandes mudanças na prática jornalística em função das novas tecnologias, mas uma nova forma de empacotar as notícias. "É apenas um modo diferente de distribuir informação", afirma, e que o jornalismo digital "nem ajusta nem altera os padrões do jornalismo".

Creio que ele esteja se referindo aos procedimentos técnicos que envolvem ética e responsabilidade na apuração e composição das matérias, porque, fora isso, novos saberes vem sendo implementados à profissão. Uma prova disso é quando Brady fala sobre a participação dos leitores, possibilitada pela internet, que ele considera uma oportunidade e, mais do que isso, "(..) envolver a audiência é crucial para nosso sucesso".

O jornalismo cidadão (ou outro nome que o chamem) também terá um papel preponderante no filé do jornalismo, nas palavras de Brady:

- Você acredita que o Era de Ouro do jornalismo investigativo é agora passado ou está apenas começando?

Dois modos de responder a isso: se você ver como anda o "staff" do jornalismo investigativo dos jornais de hoje, há muito com que se preocupar. Jornalismo investigativo é considerado um luxo que não podemos dispor. O Post possui uma unidade investigativa que pode acabar a qualquer momento. Mas, voltando à sua pergunta, se os jornalistas permitirem que os leitores, não investiguem por eles, mas que os ajudem a destacar e conseguir acesso fácil à informação, isso fará do jornalismo investigativo mais fácil do que há 15 anos, quando os jornalistas tinham que fazer dezenas de telefonemas e ir até a biblioteca pública. A habilidade dos leitores para participar da recolha de uma enorme quantidade de informações podem ajudar o jornalismo investigativo.
É o conceito de inteligência coletiva - todo mundo sabe um pouco de alguma coisa, basta conectarmos e gerenciarmos com destreza essas inteligências dispersas. Na prática, abrir a pauta na web, convidar os leitores a participarem da apuração, entender o funcionamento das redes sociais e usá-las a nosso favor.


Não é o maior barato tudo isso?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Como nossos pais. Steven Johnson no Roda Viva.

O programa Roda Viva exibiu horas atrás a entrevista gravada com Steven Johnson, um dos mais conhecidos críticos da cibercultura, em que o autor tratou de seus trabalhos sobre a relação entre novas tecnologias, cognição e aprendizagem.

Não encontrei nada de novo, mas achei oportuna a discussão em torno da educação - cada vez mais influenciada por mídias digitais -, incluindo perguntas a respeito dos "males" dos games e a "vacuidade" das redes sociais. Johnson explicou que tratam-se de instrumentos de aprendizagem e até de sobrevivência, que demandam o domínio de diversos tipos de conhecimentos e ações lógicas e criativas.

Concordo. Por que ainda insistimos em dicotomias do tipo livros x internet, cultura letrada x cibercultura, mídias tradicionais x novas mídias, e por aí vai? É bobagem. Como diria Roberta Close, uma coisa não exclui a outra.

Volto ao meu sacerdócio: são mudanças de hábitos que estão em curso. Ponto. Não há motivos para alarmes, nem para comportamentos tecnoludistas ou tecnofilistas exacerbados. É uma grande oportunidade para aprendermos. Para evoluirmos. É hora de aprendermos com nossos filhos.

Saravá!

sábado, 23 de fevereiro de 2008

A imprensa e seus flagelos


A decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de suspender, por meio de uma liminar, artigos fundamentais da funesta Lei da Imprensa - que versam sobre pena de prisão de jornalistas por injúria, calúnia e difamação - é uma boa notícia. A medida pode reverter os recentes ataques à liberdade de imprensa promovidos pela Igreja Universal do Reino de Deus.

Mas o embate com o poder político e financeiro faz parte da história do jornalismo. Suspeito que a maior ameaça ao jornalismo crítico, investigativo, "pimenta malagueta", ainda seja a apatia, a preguiça e o conformismo de jovens repórteres, cuja dieta básica é composta por releases e informações oficiais.

Sem tesão, não dá.

Reprodução: "A Flagelação de Cristo" (1607), de Caravaggio.


***
Notas de agravo contra processos da Universal:
ABI (Associação Brasileira de Imprensa)
Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas)
SJSP (Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo)

ANJ (Associação Nacional de Jornais)
Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Vaga de estágio no Santos F.C.

O Santos Futebol Clube abriu 1 (uma) vaga para estágio no Departamento de Comunicação para estudantes do segundo e terceiro ano de jornalismo. Requisitos:
  • noções de fotografia;
  • conhecimento de programas de edição (Pagemaker, Photoshop e CorelDraw);
  • afinidade com mídias eletrônicas e
  • domínio de inglês e espanhol.
Os candidatos devem morar na Baixada Santista. Serão aceitos currículos de ambos os sexos (futebol não é só para meninos!).

Para saber como enviar seu currículo, leia a notícia no site oficial do Santos.

Boa sorte!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Evento sobre jornalismo on-line terá transmissão ao vivo

O Jornalistas da Web divulgou hoje que os debates promovidos pelo JW nas Universidades - O Mercado e o Ensino de Jornalismo Online, que acontecem no próximo dia 28 de fevereiro no RJ, serão transmitidas ao vivo pela internet por meio do site do evento.

Que eu saiba, será o primeiro evento do ano com essa lambuja. A notícia ruim: é em horário de aula, das 19h às 22h. Mas taí um bom motivo para se faltar e chamar o professor para assistir. Enfim...

Entre os assuntos em pauta: assessoria, portais noticiosos, mercado de trabalho e, of course, o drama do cágado universitário que tenta alcançar a lebre digital. Como acaba mesmo esta história, caro Zenão?

Falou, bicho!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Emprego para jornalistas (não, não é piada)

Para fazer um contraponto com um mundo sombrio da profissão em postagem anterior, sugiro aos colegas pesquisarem e assinarem blogs e sites dedicados a empregos e estágios.

Dos blogs, dois se destacam: o Reporter S/A e o Link Zero. É interessante também xeretar comunidades como o Orkut (Trabalho para jornalistas, Vagas para jornalistas, etc). Quem souber de mais, por favor, nos indique.

Por hoje é só.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Admirável mundo novo

Me chamou a atenção hoje esta notícia de que a The Nielsen Company, empresa especializada mensuração e análise de mercado, contratou os serviços da NeuroFox, que faz pesquisas na área de neuromarketing. Qual é o grande negócio? Com recursos da neurociência, é possível verificar áreas cerebrais afetadas pela exposição à mensagens publicitárias, de modo a otimizar o recebimento pelo consumidor.

Segundo a matéria (leia tradução na Meio&Mensagem), trata-se de:
mensurar ondas cerebrais, movimentos dos olhos e condutividade da pele de consumidores, de forma a aumentar a eficácia das ações de propaganda e marketing. As reações do cérebro humano a uma ampla variedade de estímulos são avaliadas por meio de eletroencefalograma e um "boné de baseball especialmente desenhado", equipado com sensores que monitoram as reações do cérebro com freqüência de duas mil vezes por segundo e permitem determinar, instantaneamente e com grande precisão, as partes da mensagem que atraem a atenção, o grau de engajamento emocional, e o que realmente é memorizado.
O que não é dito é o seguinte: publicidade funciona tanto melhor quando o consumidor não pensa, quando a mensagem fala diretamente ao hipotálamo e ao reptiliano, que respondem pelo comportamento de rebanho e instintivo. Afinal, se pensar muito, pode desistir do mundo maravilhoso à venda.

É nessas horas que faz algum sentido a tradição crítica, por questão de sobrevivência.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

A máquina

A pouco mais de um ano de se aposentar, 20 de casa e vítima de acidente de trabalho, o fotógrafo Edison Baraçal (a foto acima é de sua autoria) foi demitido esta semana. O jornal também mandou embora Carlos Marques, outro fotógrafo experiente e que estava afastado por problemas de saúde.

O sindicato acusa desrespeito às normas trabalhistas e comunicou ontem a empresa (leia a historia completa aqui).

Esse filme nós já vimos. Um amigo fotógrafo comparava a redação com uma peculiar ferramenta descrita por Bukowski no conto "O espremedor de culhões". A elegância me impede de dar detalhes deste conto do velho safado.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Quando a pauta vem de Deus

O Livro das Vidas: obituários do New York Times, organizado e "posfaciado" por Matinas Suzuki Junior, é, precocemente, um dos melhores lançamentos do ano em jornalismo. Trata-se de uma compliação da cultuada seção de obituários do NYT, que fez fama pelo estilo elegante, a escrita precisa, o apuro no tratamento dos fatos e a sensibilidade jornalística para contar a vida de pessoas famosas e, principalmente, de gente comum. O extraordinário em vidas ordinárias.

O livro é altamente indicado para ordinários e afins. Explico. Algumas pessoas já nascem Pelé. Outras (e me coloco no time), precisam investir num talento, numa contingência ou prazer para sobreviver com certa dignidade no rol dos medíocres. Se jornalismo, caro leitor, for também seu ócio, ossos e ofício, então a primeira coisa a fazer é ler, MUITO, e, de preferência, coisas de qualidade. Para compensar o fato de não ser camisa 10.

E no quesito "coisas de qualidade", os obituários do NYT são a cereja do bolo.

Por isso, hoje, quarta-feira de cinzas, percorri as prateleiras da livraria Realejo, no Gonzaga, e saí maroto com a obra em um saco plástico lilás. Não sou Pelé e não tenho tempo a perder. Me interessa a vida e suas representações. Me perdoem os ficcionistas, mas a realidade continua sendo muito mais interessante e estranha. A vida comum dos ordinários.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Tudo que você não viu porque o B.O. não mostrava

Entre os maiores problemas na cobertura da criminalidade, feita pelo chamado repórter policial e que ainda vemos ocorrer em alguns jornais e telejornais populares, estão:
  • a relação promíscua com as fontes policiais;
  • a pura cópia de boletins de ocorrência;
  • os estereótipos no trato com os personagens;
  • a narrativa maniqueísta e
  • o sensacionalismo "espreme que sai sangue".
Aos poucos, os jornalistas entendem a necessidade de uma cobertura mais crítica, apoiada por uma pluralidade de fontes, pela apuração científica em base de dados e a paciência e método que requer a reportagem investigativa.

"Mídia e Violência: novas tendências na cobertura de criminalidade e segurança no Brasil", de Silvia Ramos e Anabela Paiva (download em PDF aqui), prefaciado por Marcelo Beraba, é indispensável. O livro reúne artigos e entrevistas a respeito de como a midia cobre - ou deveria cobrir - um dos problemas mais crônicos do pais, em que a violência é a principal causa da morte entre jovens.

Nas palavras de Beraba, a urgência da profissão:
O jornalismo precisa, no entanto, dar um salto de qualidade, e este salto se
chama especialização. Faro, coragem e jogo de cintura já não são suficientes
para caracterizar o bom repórter.
A dica do livro é do Novo em Folha.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O freela nosso de cada dia


Jornalismo Freelance, de João Marcos Rainho (ed. Summus), com lançamento previsto para o próximo dia 7, propõe fornecer dicas práticas de como sobreviver na profissão sem carteira assinada.

As noções vão desde o cartão de visitas até como fazer contratos e cobrança.

Creio que o livro vai figurar (fulgurar, perhaps) na lista de compras de muitos colegas desempregados. Mas, em se tratando de jornalismo, emprego é enterro de anão.

De acordo com o sindicato, em 2005 eram 35.322 profissionais registrados no Brasil. Deste total, 10.783 (30,53%) atuando no Estado de São Paulo, sendo que 6.860 (63,62%) fora das redações tradicionais (jornais, rádios, TVs), trabalhando em empresas privadas e entidades.

Porém, segundo o sindicato, o número deve ser estimado em 20 mil, contando com os "freelas".

Em recente editorial, a Folha de S. Paulo chamou atenção para o seguinte: são 497 faculdades de jornalismo no país (dados também de 2005, do MEC) com 175 mil alunos matriculados: número cinco vezes maior que os postos de trabalho (!!!!). E cerca de 20 mil novos jornalistas pegam o canudo todos os anos.

Moral da história: não se briga com os fatos. Muda-se a pauta.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

YouTube na sala de aula

O YouTube é a maior sacada da web 2.0. Mas desconfio que aproveitamos muito pouco do que a ferramenta tem a oferecer.

A "molecadinha", menos domesticada na tradição gutemberguiana, pensa e gera narrativas em imagens digitais com muita desenvoltura. A passos lentos, a universidade faz experiências com novas mídias, direcionando a geração de "prosumers" (produtores/consumidores).

Por essa razão, me chamou a atenção este post do grupo Digital Ethnography, da Universidade do Kansas (EUA), cujo blog acompanho desde 2006.

A proposta é não somente usar os vídeos, mas, o que é mais interessante, produzí-los, como forma de aprendizagem em novas mídias.

Para tanto, sugere:
  • encontrar, entre mais de 100 milhões de vídeos on-line, aqueles que são relevantes, usando sites de busca, especializados (termos, p.e., a versão brazuca do weshow), feeds e blogs;
  • fazer os downloads com programas específicos;
  • "remixá-los", "mashup-zá-los";
  • produzir clipes de até 5 minutos.
E por aí vai...

Todas ferramentas estão aí, à disposição, (quase sempre) de graça. E só botarmos a mão na massa.

***
Apostamos que este seria o ano da mobilidade. Pois bem, na semana passada foi anunciado o YouTube mobile, cuja parceria com a Tim no Brasil, para acesso de vídeos no celular, já está dando o que falar (leiam também post no Jornalismo Móvel).

Outra novidade é a parceria que a Band fez com o YouTube para transmitir um "best of" do carnaval, com direito a participação dos usuários, of course. Será que vai colar?

O Reunião está de volta!