domingo, 30 de março de 2008

Jornalismo não se faz impunemente

A Folha de hoje traz um extenso editorial em defesa da criação de uma nova Lei de Imprensa, contra a idéia da simples abolição de qualquer lei que normatize o exercício da profissão, tomando partido no debate (leia cópia do editorial no Conjur).

Destaco, entre os principais pontos da argumentação do jornal, a proteção de novas práticas de jornalismo, como a cobertura "hiperlocal" em blogs:
A fiscalização de tiranetes e oligarcas em regiões menos desenvolvidas do país ficaria mais vulnerável [sem uma regulamentação]. Tampouco haveria o devido amparo legal à efervescente "imprensa cidadã", que dissemina blogs pela internet, inovações que merecem ter proteção especial da lei de imprensa quando revestirem caráter jornalístico.
Ou seja, a Lei de Imprensa, criada pela funesta ditadura militar para amordaçar o jornalista, seria recriada para garantir sua liberdade de expressão, inclusive na internet. Mas será que a rede, a blogosfera por exemplo, não possui seus próprios expedientes e mecanismos de defesa? Será que a web social precisa de protocolos de funcionamento?

Diploma
A Lei de Imprensa e a obrigatoriedade do diploma em jornalismo estão na pauta do Supremo Tribunal Federal (STF). O diploma - historicamente desprezado pela mesma Folha que apóia uma Lei de Imprensa - é defendido por entidades como a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), que na semana passada disponibilizou no site um livro dedicado ao assunto.

Como já afirmei inúmeras vezes, concordo com o bordão "a melhor escola de jornalismo é a redação", mas, apesar da má qualidade de boa parte de cursos de Jornalismo no país, defendo não só a formação acadêmica como a formação continuada, que chamo de "jornalismo schollar".

Somam-se à função de informar a de ser "filtro" de informações e de ser "fazedor de sentido", em um universo de informação total que beira o abismo da informação zero. Mais importante que dizer algo (e a web é prolixa ao extremo) é dizer algo que faça diferença, tecendo relações e contextualizando fatos.

E para isto não basta saber responder as cinco perguntas básicas do lead. É preciso uma boa formação crítica e cultural, além de uma disposição para aprendizado full time.

Melhor não fazer?
Precisamos de uma Lei de Imprensa? Precisamos de diploma? Em entrevista ao Observatório da Imprensa na semana passada, o jornalista Renato Pompeu, encarnando o espírito de recém morto Paulo Patarra, respondeu assim à pergunta clássica "Que conselhos você daria para alguém que está começando no jornalismo?":
1) Abandonar imediatamente a profissão e escolher outra. 2) Se não for possível isso, procurar se estabelecer por conta própria na internet, com patrocínio próprio que não interfira na sua independência. 3) Se isso também não foi possível, procurar manter a dignidade profissional e preparar-se para uma vida de sacrifícios.
Por que escolhemos uma profissão em que não há mais empregos e, nos poucos cargos restantes, a competição é acirradíssima; em que há muito trabalho e riscos e pouco descanso e recompensa financeira? Faz-se por paixão, oras. Tesão, se preferirem. Faz-se, mas não impunemente. Seja em uma grande empresa de comunicação ou em um blog, nunca podemos abrir mão da responsabilidade e da intransigência.

Creio que o diploma é importante, não tenho certeza quando a uma legislação específica, mas estou convicto do que mais faz falta: pentelhos, chatos e coros desafinados.

Foto: Redação do "The Times" por Gregor Rohrig.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Sem comentários

A entrevista é aquele tipo de coisa que distingue o bom jornalista dos demais. É onde ele vai exercer sua qualidade crítica e sua capacidade de pentelhar, porque é para isso que somos pagos: pentelhar os outros.

Particularmente, se é que isso pode interessar a alguma criatura viva, sempre fui adepto da manipulação. Deixar o entrevistado à vontade, fazer perguntas mais amenas e, quando ele menos espera... CRAU!!! A pergunta impertinente... Porque é para isso que somos pagos: para usar as pessoas de modo a extrair delas informações. É um método um pouco mais sutil que o usado por Jack Bauer. Mas não deixa também de ser sacana.

Mas esqueçam tudo isso e comprem A Arte de Entrevistar Bem, de Thaís Oyama, recém-lançado pela editora Contexto (R$ 25,90), um guia de como pautar, conduzir e editar uma boa entrevista, tarefas essenciais no dia-a-dia da profissão. O livro traz dicas, macetes, os erros mais comuns e inclui o relato da experiência de 11 profissionais da área.

Seria divertido também um manual de como o entrevistado deve proceder para se livrar de perguntas indiscretas ou de uma horda inóspita de repórteres na saída do Fórum, sem recorrer ao inócuo "sem comentários". O outro lado, não é?

Leiam os livro, pentelhos!

segunda-feira, 24 de março de 2008

Gay Talese, um silogismo para começar bem a semana

Em entrevista de página inteira na Folha de hoje (para assinantes), Gay Talese, comentando o recente escândalo envolvendo o ex-governador de Nova York, Eliot Spitzer, disse que bons presidentes nos EUA tiveram amantes. Já os piores, Nixon e Bush, não. Ou seja, se Bush f**esse mais, f**eria menos os outros.

Boa semana!

domingo, 23 de março de 2008

O mundo editado

Achei muito interessante o post de hoje do Online Journalism Blog, O mundo de acordo com os jornais (em inglês), que traz parte do resultado de uma pesquisa acadêmica que compôs o mapa do mundo segundo a visão dos editores chefes de jornais de Londres, Washington, Sidney e Paris, em que aparecem destacados os países que receberam maior ou menor atenção dos periódicos em 2007 (veja também em flash). Os jornais são ainda comparados com o recorte feito pela blogosfera.

As conclusões se harmonizam com o senso comum: os jornais dão atenção a países mais populosos, vizinhos e com maior número de imigrantes do país em que o jornal é publicado. A blogosfera, como não podia deixar de ser, atende a uma audiência de nicho e, portanto, tende a ser mais "igualitária".

Apesar dos malucos por teorias conspiratórias (e aqui no Brasil virou moda, polarizando o debate sobre mídias! Falo sobre isso em postagem futura), o motivo é tão somente o interesse do leitor. Pouco deve interessar ao leitor médio uma revolução em um país minúsculo da África, ao menos não na mesma proporção de uma recessão nos EUA ou a economia chinesa, pois isso pode afetar seu dia-a-dia, seu bolso.

Para saber sobre algum micro-Estado africano ou do Leste Europeu, tenho os blogs, e esse é o grande barato! Mídias de massa e "magras" têm expedientes diversos que estão relacionados a questões administrativas muito mais do que ideológicas.

Já como estes países são representados pela imprensa é outra história. Enfim, a discussão é boa.

Teoria
A pesquisa é parte de um projeto de dissertação de Nicolas Kayser-Bril, onde se pode conferir a metodologia empregada. A base teórica do trabalho é a teoria do agenda-setting, que estuda como a mídia define nosso recorte de mundo por meio de pautas e processo editorial, definindo os fatos que devem ser expostos à opinião pública.

Se os resultados podem parecer redundantes, o emprego de softwares na metodologia e a comparação entre mídias de massa e pós-massivas (os jornais e a blogosfera), reeditando uma teoria dos anos 60, é muito bacana!

E o mundo segundo a mídia brasileira?

domingo, 16 de março de 2008

Sobre manuais de redação

Manuais de redação já foram acusados de "engessarem" o texto jornalístico. Mas são ferramentas indispensáveis no dia-a-dia, assim como bons dicionários, para resolver aquelas dúvidas que sempre pintam.

Para quem começa a se viciar na profissão, focas de todas espécies, os manuais de redação e estilo deveriam ser devorados e lambidos até o osso.

Do Jornalismo&Internet, tirei esta semana a dica de manuais on-line. Os melhores:
São ainda uma ótima oportunidade para estudar a língua inglesa (ou espanhola, no caso do último)!

No Brasil, temos os clássicos que estão sempre na gaveta (somente o primeiro, da Folha, disponível em versão on-line):
Além do primeiro de um portal noticioso:
Boa semana!

sábado, 15 de março de 2008

Crônicas de um brasil sem-lei

Plantados no Chão: assassinatos políticos no Brasil hoje, da jornalista Natalia Viana, é um livro-reportagem que fala sobre os crimes políticos de um Brasil contemporâneo, mas em que os cidadãos ainda vivem às margens da democracia.

As vítimas são líderes de movimentos sociais, em sua maioria ligados à questão agrária.

A obra traz ainda o registro de 80 execuções recentes, compilados entre 2003 e 2006, incluindo o motivo e situação judicial.

As informações do livro são atualizadas em um blog, que propõe também acompanhar novos casos. O site traz links interessantes para quem se interessa por jornalismo social.

Natalia Viana é correspondente da Bandnews em Londres e ex-repórter da revista Caros Amigos. Ela disponibilizou o livro na internet (baixe aqui).
Trecho:
Quando entrevistei Chico Mendes em Brasília, um ano antes de sua morte, num primeiro momento não entendi por que ele quase não olhava para mim. Seus olhos corriam de um lado para outro, vigiando a rua. Demorei para entender que ele esperava um tiro a qualquer momento. Como tantos outros líderes
populares, convivia com a certeza de que o preço de sua liderança seria a morte, e não a glória.

Necessário.

domingo, 9 de março de 2008

Quando a imprensa erra

No banco dos réus, a imprensa passou de vítima a algoz. Decisões judiciais colocaram em cheque, na última semana, o trabalho e até mesmo a reputação de duas revistas nacionais.

No Rio, a Época foi condenada a pagar R$ 22,8 mil de indenização por danos morais para um administrador de empresas apontado em uma reportagem como traficante de ecstasy. O problema é que ele já havia sido absolvido na Justiça três meses antes da publicação da matéria (leia decisão no Conjur).

Mais grave ainda é o caso da Carta Capital, acusada de forjar documento judicial que convoca o jogador Kaká a prestar esclarecimentos sobre sua relação com os líderes da igreja Renascer em Cristo (leia a matéria). Segundo a Justiça paulista, o suposto documento não consta nos autos do processo, informa o Conjur.

A revista, no entanto, ratifica a veracidade da reportagem e acusa a igreja de tentar intimidar a equipe (leia nota aqui).

Anjos e demônios
Não são casos isolados no disputado mercado editorial brasileiro. Em 2006, a Isto É foi protagonista do escândalo do dossiê contra Serra. E a Veja... bem, é um caso à parte no jornalismo.

Reprodução: The Sacrifice of Isaac (1603), de Caravaggio (1573-1610)

Concurso da CNN para estudantes de jornalismo

A CNN Internacional recebe até 11 de junho inscrições para o Concurso Universitário de Jornalismo CNN. Para participar, é preciso enviar uma matéria de até dois minutos de duração, gravada em DVD ou Mini DV, com o tema "Socialização por meio da arte".

O vencedor terá a matéria exibida no canal de notícias e ganhará uma viagem para conhecer os estúdios da CNN em Atlanta (EUA).

Estudantes regularmente matriculados em cursos de jornalismo podem se inscrever pelo site do concurso.

sábado, 8 de março de 2008

Lição de casa

As tecnoculturas nos deixam mais espertos ou mais idiotas? Os cartoons atuais oferecem uma narrativa mais complexa em relação aos exibidos na TV aberta nos anos 70/ 80. Eles são um exemplo de como o acesso a todo tipo de informação e, mais importante, novas ferramentas de interação e produção de conhecimento refinam a espécie. Mais espertos então, certo? Hum...

O caso do Ben 10, por exemplo, uma nova mania entre crianças e pré-adolescentes. Benjamin tem 10 anos, não vai à escola e desfruta de férias prolongadas com seu avô (quer coisa melhor que um avô fazendo suas vontades?) e a prima (olha aí a tensão sexual!). Eles cruzam os EUA em um furgão velho mas superequipado com tecnologia de ponta.

O detalhe é que o fedelho possui uma espécie de relógio que o transforma em 10 aliens diferentes, alguns assustadores e nojentos, que enfrentam tipos da mesma laia. Ou pior.

Transformação é uma tema típico numa fase de mudanças físico-químicas da adolescência. Toda cultura possui seus rituais de passagem para ajudar a lidar com isso.

O maior inimigo de Ben, na verdade, é a insegurança. E ela se faz presente o tempo todo: é o relógio alienígena que não funciona, as mutações temporárias ou simples azares cotidianos.

Livros
Mas tem algo que me incomoda neste desenho animado. Ben 10 tem um discurso que deve irritar pedagogos e educadores. Ele ODEIA escola. No último episódio, se viu confrontado com seu maior pesadelo. Havia voltado à escola. Ali estava ele, apavorado, no meio da biblioteca!

Discordo de quem acha que a internet aos poucos destrói a cultura erudita e livresca. Pode acabar com Gutenberg, mas o impresso é só um dos suportes da escrita, e os hipertextos oferecem possibilidades mais interessantes. Digamos que a internet devora meio que antropofagicamente, vá lá.

O problema é quando achamos que Machado de Assis é chato e escola é lugar para azucrinar. Tudo bem que as instituições de ensino deveriam fazer um upgrade, mas nada substitui a leitura, o tempo de reflexão e os métodos na aprendizagem.

O que me resta dizer? Quem sabe nos próximos episódios Ben redescobre a biblioteca como um lugar tão legal quando a dimensão X . Talvez goste de Kerouac ou H.P.Lovecraft. Alô, vovô!

terça-feira, 4 de março de 2008

Jornalismo 2.0 é tema de evento em SP

O site Jornalistas da Web promove no próximo sábado (08/03), das 9h às 17h, no espaço Gafanhoto (SP), o primeiro NewsCamp, que vai reunir jornalistas interessados em mídias digitais e novas tecnologias. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas no blog do evento.

O NewsCamp segue o modelo do BarCamp de desconferências, em que os participantes definem previamente ou na hora os temas a serem debatidos. Tudo no espírito autogestionário da web.

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Outra dica vem do colega Jornalismo Móvel: o Canal de Empregos do JW. Mais um para nossa lista!

segunda-feira, 3 de março de 2008

Tom Zé, 72, não vende mais CD. E está adorando


O Estadão traz hoje uma matéria do Renato Cruz sobre novas estratégias de sobrevivência da música, com a falência da indústria fonográfica. Uma das apostas, a ser consumada pela Trama, é a distribuição gratuita de álbuns virtuais em sites e faturamento com anúncios.

Os jornais, aliás todas mídias tradicionais, deveriam olhar para a rápida evolução e obsolescência de plataformas de registro de arquivos sonoros - fonógrafo, vinil, fita-cassete (aaaargh!!!) e CD -, observar e aprender. Ver o que dá certo ou não, porque é bem provável que se vejam na mesma encruzilhada, se é que não estão.

É preciso ter mente zen, mente aberta. Como Tom Zé, que aos 72 anos cultiva uma audiência que é responsável pelo sucesso das redes sociais e pelo assassínio dos hits. Vivendo e aprendendo.

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Em tempo: encruzilhada é ponto de bifurcação que, como ensina Prigogine, é também ponto de partida em direção ao crescimento, bastando para isso estarmos abertos o suficiente para coisas novas.

Falou, bicho!

sábado, 1 de março de 2008

Trainee no iG

O Comunique-se informa que o portal iG inaugura na próxima semana seu programa de treinamento para jornalistas recém-formados ou cursando o último semestre de Jornalismo (leia matéria aqui).

Serão selecionados 10 estudantes que ficarão oito meses na redação do iG e receberão salário de R$ 1.250 mais benefícios. As inscrições podem ser feitas a partir de terça (dia 4) no Trabalhe no iG. Os candidatos devem enviar currículo, histórico acadêmico e matéria com 1.500 toques.

Requisitos:
  • conhecimento de Word, Excel, Power Point e Photoshop;
  • inglês fluente;
  • ser simpático e curioso (para resumir a coisa).
Se minha opinião vale um tostão furado, acho que as empresas poderiam incluir nos requisitos para o bom jornalismo mais três qualidades: cinismo, ceticismo e ateísmo. Mal não faz.

Debate sobre contemporaneidade será transmitido ao vivo pela internet

O Itaú Cultural promove nos próximos dias 4 e 5 (quarta e quinta-feira) o colóquio "Tramas do Contemporâneo".

Os debates acontecem na Sala Itaú Cultural (av. Paulista, 149), às 19h30, com entrada gratuita. Haverá transmissão ao vivo no site.

Na quarta, o filósofo e professor da USP Franklin Leopoldo e o psicanalista e professor da PUC-SP Renato Mezan participam do "Tramas da Cultura". O segundo dia do evento, "Tramas da Arte", terá como convidados os professores da USP José Miguel Wisnik e Teixeira Coelho.

Bom programa!