domingo, 25 de maio de 2008

Cinco novas maneiras de se ler jornal

Curiosidade faz parte da virtú de todo bom repórter. Houve um tempo, inferior a uma geração, em que, além desta qualidade, ter um bom texto, noções de edição e boa formação ética e cultural eram requisitos que bastavam para iniciar a carreira. Testes para estágios e vagas em grandes empresas têm demonstrado que é preciso um pouco mais.

A boa notícia é que, com certa dose de curiosidade, é possível responder de modo satisfatório ao mercado atual. Creio que a vontade de aprender e experimentar coisas novas é condição para mergulhar na complexidade da midiasfera.

Para atender a essa complexidade, algumas escolas de jornalismo desenvolvem novas rotinas de aprendizagem, implementando velhas e novas fórmulas na formação do profissional.

Ler jornais, por exemplo, é uma fórmula antiga e, a meu ver, ainda obrigatória. Mas existem outros modos de ser ler jornais ou consumir notícias. São experiências úteis, simples e -melhor de tudo- baratas, encontradas em serviços disponibilizados pelos principais portais e sites de jornais on-line do país. Vamos a elas:

1) Feeds RSS
É a inversão do processo de busca por informações: ao invés do leitor ir à fonte, a fonte vai até ele, como se o leitor tivesse, no seu computador, uma sala de imprensa particular filtrando as notícias que chegam. É, aliás, um recurso imprescindível para acompanhar a atualização de dezenas de blogs e sites.

Nos portais, agências e jornais são oferecidos feeds por editorias (Esporte, Tecnologia, Política, etc), em que o leitor escolhe as informações que quer receber.

É muito fácil assinar um feed. É preciso antes criar uma conta gratuita em um serviço de leitor de feed, como o Google Reader. Depois, clicar no link identificado com um selo laranja ou as siglas RSS ou XML no site de preferência (estes serviços costumam vir na barra lateral esquerda da página). Por último, é só escolher as editorias e passar a receber atualizações diárias. Exemplos: G1, UOL, Estadão, BBC Brasil e Jornal do Brasil.

2) Newsletters
São boletins com as principais manchetes, recebidos por e-mail mediante um cadastro feito gratuitamente. Exemplos: UOL, G1, IG e BBC.

3) Alerta de notícias
As informações são recebidas em uma barra ou janela (widget) no desktop do computador e dispensa a abertura do browser (navegador). Permite também a personalização do pacote. É preciso ter uma configuração adequada ao aplicativo para fazer o download (veja tour virtual na Globo.com). Exemplos: G1 e Estadão.

4) Celular
Celular não é telefone. Esta é apenas uma de suas funcionalidades. Cada vez mais jornalistas produzirão conteúdo para serem acessados por dispositivos móveis, como celulares, PDAs, redes Wi-Fi e bluetooth (como o serviço que a BBC está testando) Portanto, é interessante começar a ver como funcionam.

As principais formas disponibilizadas na imprensa brasileira são:
  • SMS (mensagem de texto): é muito simples assinar o serviço. Basta clicar em "celular", "mobile" ou no ícone correspondente na página, escolher a(s) editoria(s) e informar número do aparelho e operadora. O curso, em geral, é R$ 0,10 por mensagem de texto recebida.
  • WAP: é um site feito para ser acessado pelo celular. Para isso, é preciso verificar se o aparelho possui este dispositivo (WAP), que permite acesso à internet. Depois, é só digitar o endereço no aparelho (wap.globo.com, wap.uol.com.br, etc) e navegar. O valor da cobrança varia de acordo com o plano da operadora.
Exemplos: Estadão, G1, Terra, JB Mobile e JB PDA.

5) Blogs
Também é possível acompanhar as notícias no próprio site ou blog do usuário, copiando e colando o código fornecido pelo portal. Exemplos: G1 e IG.

Boa semana (e leituras) a todos!

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Manual Fox Mulder para evitar barriga em jornalismo

Manual do IG
Dúvida: “Nenhuma notícia produzida pela redação do Último Segundo deve ser publicada se houver alguma dúvida sobre a sua veracidade, ainda que o jornalista acredite que a informação seja 99% certa (...) É preferível levar o furo a disseminar informação duvidosa.”

Precisão: “O Último Segundo só destaca informações precisas, checadas e confirmadas.”

Repórter: “O jornalista deve tentar ir ao local da notícia.”

Manual da Folha

Barriga: “Publicação de grave erro de informação.”

Erros fazem parte da rotina jornalística. O importante é aprender com eles e, obstinadamente, procurar não repeti-los. O que podemos aprender com a "barriga" desta última terça (20), em que os portais IG, Terra e UOL repercutiram, sem checagem completa, a informação errônea de uma queda de avião em SP, divulgada pelo canal Globo News?

Creio que a lição é que a pressa e o jornalismo copidesque dos portais prejudicam a qualidade do produto e afetam a credibilidade do veículo. A pressão do dia-a-dia e a concorrência deveriam ser motivos para melhorar o serviço oferecido, não para desprezar regras básicas de apuração na tentativa de exorcizar o "furo" tomado.

Repórter como mero "empacotador" de notícias é um risco. Afinal, não custa nada fazer algumas ligações antes de publicar.

Pode parecer quixotesco da parte do RP, mas o testemunho de um bom trabalho de reportagem ainda é a sola gasta do sapato do repórter. Vale citar um último manual, o Fox Mulder: "A verdade está lá fora". Fora das redações!

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Coberturas do caso
Jornalismo & Internet
Webmanário

Comentários dos ombudsmen
Mario Vitor Santos - IG
Tereza Rangel - UOL

Foto: Bob Woodward (esquerda) e Carl Bernstein na redação do Washington Post em abril de 1973 (por Ken Feil).

domingo, 18 de maio de 2008

Redações: integração sem choques

A pesquisa Newsroom Barometer 2008, divulgada recentemente, apontou que 86% dos editores norte-americanos e europeus entrevistados apostam na integração das redações impressa e on-line como a melhor maneira de garantir a sobrevivência financeira dos jornais.

Um exemplo de obstáculo na implantação de uma redação multimídia -a exemplo do britânico Daily Telegraph (foto)- é o seguinte: tenho um "furo" de reportagem; publico no site e furo o próprio jornal ou espero para "manchetar" amanhã? Pois mostrar que não há competição entre equipes é justamente um dos objetivos do modelo de integração gradual dos jornais.

É este o assunto do post do The Editors Weblog, na semana passada, com Jim Roberts, editor de notícias digitais do New York Times. Roberts conta como o jornal, considerado o mais influente no mundo, implanta gradualmente, nos último três anos, a integração de suas redações.

Se depender do Times, esse hibridismo tem prazo de validade. Ele é apenas uma etapa do processo de extinção do papel e seus altos custos para a empresa.

A estratégia é reveladora em relação ao que o RP vem afirmando a respeito do fenômeno de convergência, um fato mais cultural do que tecnológico, isto é, que tem a ver mais com mudança de hábitos. É o que fica claro nas seguintes medidas implantadas no NYT, segundo o editor:
  • Criação do continuous news desk, para que os repórteres das sucursais publiquem notícias em plataformas on-line, de modo a serem lidas instantaneamente pelos editores (algo que você pode fazer, em menor escala, com um Google Docs, por exemplo).
  • Inauguração de uma editoria de multimídia, para estimular a colaboração entre impresso e on-line: uma matéria do jornal ganha vida com áudio, vídeo e infográficos, além de resolver os limites de espaço nos jornais para incluir documentos e material adicional.
  • Convencer os repórteres que ferramentas da web ajudam a contar melhor suas histórias.
  • Mostrar que, se eles não estiverem na Internet, seus concorrentes estarão: apelar para o espírito competitivo da profissão sempre dá certo!
O que me parece claro é que mudanças físicas são menos importantes do que alterações no ritmo do profissional, que precisa abrir sua mente e tomar a pílula vermelha. Vibrar em outra frequência. Trocar de pele.

Vale lembrar que um lado negativo da história, mas não necessário, é a demissão e o acumulo de funções.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Estadão abre inscrições para trainee

As inscrições para o19º Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do Estado estão abertas até o dia 1º de julho. Podem se inscrever jornalistas formados em 2006 e 2007 e estudantes que concluem o curso este ano.

O programa será realizado em São Paulo de 1º de setembro a 5 de dezembro. As fichas de inscrições e o calendário de prova e entrevistas podem ser encontrados no site do curso. São oferecidas 30 vagas. Por ano, inscrevem-se em média 3 mil candidatos.

Os aprovados terão aulas pela manhã (Filosofia, Economia, Política e Ética) e atividades práticas na redação do jornal no período da tarde. Além da produção e edição de material jornalístico, os aprovados terão noções de:
  • responsabilidade jurídica do exercício profissional;
  • aconselhamento para administração de carreira profissional;
  • dados sobre o mercado nacional e internacional de jornais e
  • evolução dos meios de comunicação.
Ao final do curso, os profissionais fazem um caderno especial e têm os currículos inseridos no Banco Estado de Talentos. O curso é gratuito.

Apesar de muito concorrido, é uma das raras oportunidades para começar a carreira com o pé direito, além de suprir deficiências das escolas de Jornalismo. O site também disponibiliza as provas dos anos anteriores, com as respostas.

É bom irem lendo jornais, todos os dias.

sábado, 10 de maio de 2008

Jornalismo em Flash inova formatos narrativos

Vale a pena conhecer o trabalho do coletivo Garapa, formado por repórteres fotográficos que atuam em jornais e revistas paulistas. Eles produzem material jornalístico multimídia, combinando fotos, áudio e texto, com registros que fazem nas ruas.

O slideshow dos bastidores da cobertura do caso Isabella, com belas fotos em p&b e áudio com o "ruído" gerado pelos repórteres e a multidão solitária de plantão, tem uma atmosfera melancólica.

O jornalismo multimídia vem dando um novo gás aos contadores de histórias na imprensa, revelando a face mais humana da notícia. A facilidade no emprego e a gratuidade softwares de edição também favorece a prática.

Em Acidente, no mesmo site, Paulo Fehlauer conta que o material deste trabalho foi recolhido em duas horas no local do fato - um acidente com vítima fatal ocorrido na zona norte de SP - e que levou mais duas horas para fazer a edição com os programas GarageBand (áudio) e Soundslides (slideshow).


Mais ferramentas:
Asterpix
Slideroll
Viewletpoll

Mais exemplos:
Agência Brasil
Mediastorm
Star Tribune

Artigo sobre o Garapa:
Observatório da Imprensa

Artigo sobre jornalismo multimídia (com mais exemplos):
Poynter

Artigo sobre flash journalism (com mais exemplos):
Online Journalism Review

Tutorial de produção (em espanhol)
JC Warner

Material de curso de jornalismo interativo:
Andre Deak

Livro:
Flash Journalism

terça-feira, 6 de maio de 2008

Pesquisa mede interatividade de jornais europeus

Uma pesquisa realizada por grupo de jornalistas europeus e coordenada por Paul Bradshaw, do Online Journalism Blog, desenvolveu um índice de interatividade de alguns dos principais jornais da Europa. O trabalho, ainda em curso, consiste em avaliar 24 ferramentas de interatividade em sites de jornais, que incluem feeds RSS, chats, blogs, newsletter, bookmarking social, fórum, comentários e twitter, entre outras (nota-se a ausência do serviço de jornalismo cidadão).

A amostra inclui jornais de Portugal, Reino Unido, Espanha, Macedônia, Hungria, Polônia e Suíça. Em Portugal, foram analisados Correio da Manhã, Expresso, Publico, Diário de Notícias e Jornal de Notícias (neste país, participa da pesquisa Alex Gamela, de O Lago).

O resultado parcial pode ser conferido aqui.

Pesquisadores brasileiros também podem colaborar, enviando a avaliações para alimentar o banco de dados do OJB, bastando para isso preencher o cadastro e enviar com a senha disponível no blog.

Comentário
A investigação deve fornecer um termômetro da transposição de jornais para a internet, mas o que dirá a respeito de aspectos qualitativos dos serviços oferecidos?

No Brasil, é comum jornais de pequeno e médio porte que fazem transposição mecânica ou direta, reproduzindo a plataforma do impresso na web. Já em jornais de grande porte e portais, a interatividade ainda deixa a desejar. Encontramos comentários que não passam por filtros, conteúdo sem nenhum interesse jornalístico e blogs sem links, entre outros problemas.

A medição da qualidade demanda uma pesquisa mais complexa, que explore o conceito de convergência, que tem mais a ver com cultura do que com tecnologia. Mas nada disso tira o mérito do levantamento feito pelo OJB.

domingo, 4 de maio de 2008

Sindicato promove curso de jornalismo policial em SP

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) abriu inscrições para o curso de Jornalismo Policial, que será ministrado pelo jornalista Evandro De Marco (Diário do Grande ABC) em quatro sábados de maio (dias 17 e 31) e junho (dias 07 e 14), das 8h30 às 12h30 no Ação Educativa, próximo ao metrô Santa Cecília em São Paulo. O curso é voltado para profissionais e estudantes de jornalismo. As inscrições podem ser feitas no site do SJSP.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

O que os jornalistas encontraram no Twitter

A idéia das pessoas contarem o que estão fazendo, expondo a mediocridade do cotidiano no Twitter, me parecia a bula de um remédio que apenas esconde os sintomas do non sense da fragmentação de vidas hipermodernas. Afinal, a quem pode interessar saber se estou assistindo desenhos animados com o Lucas, lendo um livro ou escrevendo um artigo? Na maior parte do tempo, a existência é puro enfado.

O terremoto que atingiu São Paulo e outros três Estados no dia 22 de abril, noticiado em primeira mão pelo Twitter (furo divulgado pelo 8 Bits e Meio e que fiquei sabendo pelo Alec Duarte), me despertou, tardiamente, a curiosidade pelo mais popular serviço de microblogging da atualidade.

Mas qual seria a utilidade de informações em 140 caracteres (espaço de escrita no Twitter) quando o que precisamos é informação de qualidade, contextualizada, relacionada, analisada e apurada com precisão?

A ferramenta ainda é pouco explorada no jornalismo brasileiro, mas algumas experiências nos fornecem indícios de como a prática pode ser implementada à rotina das redações:

  • Pautas: calamidades e desastres naturais como incêndios e terremotos, além de protestos e manifestações, em geral são noticiados primeiro em microblogs e no chamado jornalismo cidadão. O Twitter, quando bem empregado, torna-se uma fonte em potencial para pauteiros de plantão.
  • Apuração: o uso das redes sociais e do Twitter em especial para fazer contatos, agendar entrevistas, descobrir e localizar fontes. Cobertura just-in-time de eventos como palestras, conferências e esportes.
  • Redação: escrever uma notícia em blocos de 140 caracteres e enviar pelo celular do local do fato pode ser de grande agilidade no setor de breaking news.
  • Distribuição de notícias/divulgação da marca: pouquíssimos portais e sites noticiosos no Brasil, como o G1, a Globo Online e a BBC Brasil (em Portugal os jornais Publico e Jornal Expresso), usam a plataforma para dar notícias ou mesmo divulgar suas marcas junto à audiência. Alguns criaram seções específicas, como o Minha Notícia (IG), o UOL Cinema e o Limão (Estadão).
A web social é um grande laboratório de comunicação e uma incubadora de projetos on-line, o que me leva a crer que o que o Twitter tem de mais importante a oferecer aos jornalistas é oportunidade de aprendizado.

Artigos sobre o asunto:
Como os jornalistas podem dominar o Twitter de Paul Bradshaw (em inglês)
Como usamos Twitter para jornalismo de Marshal Kirkpatrick (em inglês)

Textos didáticos:
Interney
Pensar Enlouquece

Matérias:
Caderno de Informática da Folha
(exclusivo para assinantes)

Foto: René Magritte, Golconda (1953).