terça-feira, 31 de março de 2009

Adote um repórter investigativo

O anúncio ontem do Huffington Post de que vai investir, inicialmente, US$ 1,75 milhão em reportagens investigativas, é mais um sinal de que o salva-vidas da imprensa norte-americana deve ser atirado ao jornalismo de qualidade, não aos jornais.

A verba vai manter 10 repórteres que coordenarão uma equipe de freelancers para cobrir, inicialmente, a área de economia. A fórmula de financiamento é empregada com sucesso pelo ProPublica, mantido por uma fundação.

A busca por financiamentos alternativos ocorre pelo fato de que, com a crise dos impressos, agravada com a crise econômica mundial, equipes de repórteres investigativos foram extintas em diversas redações nos Estados Unidos, devido ao alto custo de sua manutenção.

A grande questão é como preservar o jornalismo com o fim do modelo que o sustentou, bem ou mal, durante décadas. Pelo visto, a discussão chegou às redações brasileiras.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Dicas de segunda

Fiquei devendo, já há algum tempo, uma lista de HQs independentes (nos anos 80, chamávamos udigrúdi), disponibilizadas online. Bom, alguém fez isso por mim. O quadrinhista Daniel Pereira dos Santos postou hoje em seu blog uma série de links. Não deixem de ler, no mesmo site, Muertos e Nothing to Lose (ilustração).

Para quem se interessa pelo assunto, o blog de meu comparsa Abs Moraes tem muita coisa de qualidade que não está nas bancas de gibis (pesquisem em Moraes Stuff), além de bastidores de produções alternativas. Cool.

Deserto do real
O Link de hoje do Estadão traz 10 anos de Matrix (o original de 1999 e o único que presta da trilogia). Tem lá as referências cyberpunks do filme e sua herança para a cibercultura.

Boa semana!

domingo, 29 de março de 2009

Fábrica de fazer salsichas

A tese do jornalista Caio Túlio Costa, Ética, Jornalismo e Nova Mídia: uma moral provisória, acaba de sair pela Jorge Zahar (R$ 39,90). Pelo que podemos conferir pelo sumário, se trata de uma trabalho bem fundamentado em filosofia, o que é raro em discussões sobre ética e deontologia da comunicação.

Buscar uma base moral para os dilemas da profissão não é nada fácil. Considero a ética o principal tema de pesquisa em jornalismo, o mais difícil e urgente (apesar de não ser minha especialidade). Nas redações, é aquele fantasma que todos tentamos ignorar e ir tocando as pautas. Mas está sempre ali, nos assombrando. Impossível passar impune.

O livro é altamente recomendável para estudantes, antes que se tornem funcionários da fábrica de fazer salsichas. Só deixem a obra longe das gôndolas: se o consumidor souber como são feitas salsichas e notícias, é bem capaz que mude a dieta.

(leiam também resenha no Conjur).

Mingau cibernético

Mídias são, basicamente, uma questão de hábito. O que menos importa, portanto, é a tecnologia ou meio de comunicação em si, mas a experiência de mundo proporcionada. Era mais ou menos isso que os titios M. McLuhan e W. Benjamin sacaram, há muitos anos.

Exemplo legais são as nossas mamães ouvindo rádio enquanto preparavam o almoço na cozinha ou torciam roupa no quintal; nossos pais tomando cerveja e assistindo ao jogo de futebol com os amigos; as milhares de refeições em frente à TV, curtindo Os Trapalhões ou Balão Mágico; o vovô lendo jornal de manhã e saboreando o café; a família brasileira que se reunia às 20h para assistir ao Jornal Nacional.

O quanto estes hábitos estão mudando nos dará uma medida do quanto os modos de produção de notícias serão alterados. Aos poucos, todas estas mídias convergem (palavra da moda) para o computador. E esse desktop comportado em que escrevo o blog vai ficar, cada vez mais, comprimido em um aparelho que cabe na palma da mão.

A molecada acessa informações na balbúrdia do metrô, enquanto conversa com amigos, manda scraps, ouve música, faz download de um novo game e... opa, olha aí, Luz.


Agora pegue essa turma que vive em outra realidade -- realidade entendida como um conjunto de experiências sociais, portanto, absurdamente dinâmica -- e implante num organismo do século 20, em processo de metástase. A escola, por exemplo. Ou a universidade. Sacou o problema?

É hora de pararmos de competir com o mundo em redes de comunicação avançadas e tentar compreendê-lo. Entrar de vez no século 21, por mais ordinário que nos pareça. Pesquisar novos hábitos de consumo de mídias já foi uma estratégia de controle. Agora, é questão de sobrevivência.

Saravá, Brave New World!

Créditos: mightymightymatze e inju (Flickr).

quinta-feira, 26 de março de 2009

O ouvido do século

Se no terreno das artes plásticas, cinema e literatura já é difícil assimilar a inventividade e atitudes pouco convencionais das vanguardas artísticas do século 20, na música, então, nem se fala.

Nossos ouvidos são muito mais conservadores que nossos olhos.

Tragamos Antonioni, Godard, quem sabe Joyce ou Proust... Duchamp e Picasso, é claro. Mas experimente Stravinski, Webern, Shoenberg, Cage, Boulez, só para ficarmos nos mais famosos da turma.

O Resto é Ruído: escutando o século XX
, de Alex Ross (Companhia das Letras, R$ 64), com previsão de lançamento para hoje, fala sobre essa difícil assimilação - mas não menos marcante em sua influência - da música contemporânea. A leitura é altamente recomendada para quem se liga em jornalismo cultural.

Ross contribui para a revista New Yorker desde 1993, onde é crítico musical desde 1996. The Rest is Noise é seu primeiro livro, publicado em 2007. Na premiada obra, ele conta uma história cultural e social da música desde 1900, explorando as influência pouco conhecidas da música de vanguarda na cultura popular, incluindo o rock.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Concurso CNN


As inscrições para o 5º Concurso Universitário CNN foram abertas ontem e devem ser feitas até o dia 29 de junho. O tema este ano é O uso da tecnologia no desenvolvimento social. Podem participar estudantes matriculados em cursos de Jornalismo em universidades brasileiras reconhecidas pelo MEC. Para concorrer, basta fazer uma matéria em vídeo de até dois (02) minutos (leia regulamento).

O primeiro lugar ganha uma viagem para visitar os estúdios da CNN International em Atlanta, nos Estados Unidos (vídeo), e terá a matéria exibida no canal. As inscrições podem ser feitas no site do evento. A novidade este ano é que os vídeos serão postados no YouTube e foi criado um blog do concurso.

terça-feira, 24 de março de 2009

Crimes sem castigo 2009

O Brasil foi incluído este ano na lista de 14 países com maior número de jornalistas assassinados cujas mortes permanecem impunes, divulgada ontem pelo CPJ (Comitê para a Proteção dos Jornalistas). O ranking é encabeçado pelo Iraque e outros países em conflito.

De acordo com os levantamento, os homicídios de profissionais estão relacionados com reportagens sobre violência, corrupção e política. No Brasil, são cinco casos não solucionados. O índice de impunidade também foi matéria na Folha de hoje.

***
O STF (Supremo Tribunal Federal) deve julgar dia 1º de abril o recurso de inconstitucionalidade do diploma em Jornalismo para exercício da profissão, junto com a Ação Direta de Inconstitucionalidade da Lei da Imprensa (via Fenaj).

domingo, 22 de março de 2009

Bolaño, o mito

Morto em 15 de julho de 2003, aos 50 anos de idade e vítima de cirrose hepática, o escritor chileno Roberto Bolaño não escapou da sina destinada aos criadores literários de se tornarem mitos.

Matéria publicada hoje no El País revela como o autor, que teve pouco tempo em vida para desfrutar da popularidade, se tornou um fenômeno editorial post mortem. Depois da publicação de 2666, que virou febre ano passado nos Estados Unidos (país, aliás, onde encontrou divulgadores de peso como Susan Sontag), agora editores reviram seus arquivos em busca de novos best-sellers.

Entre os manuscritos encontrados estão "O Terceiro Reich", "Diorama", "Os Problemas do Verdadeiro Oficial de Polícia".

***
Publicados no Brasil:
Crédito da foto: EFE.

sábado, 21 de março de 2009

Como escrever para a web

Centro Knight lançou ontem a versão em português do livro em Como Escrever para a Web (em PDF. Download gratuito), do jornalista colombiano Guillermo Franco. A tradução é do jornalista brasileiro Marcelo Soares.

A capa já dá a dica: o autor defende o uso da pirâmide invertida (o que não chega a ser um consenso). O livro, lançado em 2008, tem fartos exemplos e deve interessar, sobretudo, estudantes e professores da área.

Boa leitura.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Robôs na redação

A produção de notícias não é mais uma tarefa exclusiva do jornalista, mas envolve a participação de usuários e programas agregadores de conteúdos. Esta é a base conceitual do portal espanhol lainformacion.com, em fase de testes.

O site de divulgação do projeto tem uma série de textos que discutem o novo papel do profissional de imprensa e os meios de comunicação. O emprego de feeds RSS em portais e sites de notícias e as ferramentas de jornalismo cidadão são explorados, hoje, dentro de uma estrutura hierarquizada de modelos tradicionais de negócios. O Lainformacion acredita que esse é o erro e, por isso, também não aposta na integração de redações.
A proposta é obscura quanto ao papel dos usuários no processo. A novidade é um software de agregador de notícias que vai depurar mil fontes diferentes -- jornais, revistas, blogs, etc. -- para atualização automática do portal, deixando a redação livre para fazer trabalho investigativo e analítico. Ou seja, a ideia é deixar os robôs empacotarem da notícias para o profissional se dedicar a contar histórias originais e com mais profundidade.

O jeito é esperar para conferir.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Seminário debate cobertura da violência

O Seminário Internacional Sobre Mídia e Violência discutirá a cobertura de crimes com profissionais da área em São Paulo (23 de março) e Rio de Janeiro (26 e 27 de março), das 9h às 18h. O evento é gratuito e reúne jornalistas de três países para realização de painéis e workshops, entre eles Caco Barcellos. As inscrições podem ser feitas no próprio blog do evento (via Abraji).

Poetas e engenheiros

Editando hoje pela manhã um texto sobre os 20 anos da web, escrito de madrugada, decidi eliminar - edição é escolha, não é? - a parte mais complexa, mas que considero mais interessante, que se refere ao ambiente cultural no qual o hipertexto foi criado.

É curioso como gerações mais recentes não se intimidam com a linguagem da informática, mas ignoram completamente a tecnologia anterior que também está ali, ainda que não pareça. Enquanto parte da minha turma, ou pelo menos alguns que possuem hábitos mais livrescos, não quer nem saber de computador.

DNA
A internet e a web foram gestadas numa orgia hightech que misturava militares, hippies e nerds. E, hoje, guarda muito dessa herança.

Seguem trechos do artigo destinados ao limbo:
Os registros mais antigos do rompimento da linearidade na escrita são encontrados no I Ching, o Livro das Mutações chinês (1150 a.C), e no Talmud, que preserva a doutrina tradicional do Judaísmo (499 d. C.).

Em 1897, o poeta francês Stephane Mallarmé (1842-1898) publicou o poema pré-hipertextual “Um Lance de Dados” (Coup de dés), em que explora leituras aleatórias no espaço bidimensional da página impressa utilizando artifícios tipográficos. Nos anos 1960, o também francês Raymond Queneau (1903-1976) inventou a “máquina de fazer poemas”, chamada “Cem Mil Milhões de Poemas” (Cent Mille Millards de Poèmes), que consiste em 10 sonetos de 14 versos permutáveis que permitem ao leitor criar seu próprio poema.

(...)

Em 1945, o engenheiro norte-americano Vannevar Bush (1890-1974) idealizou um dispositivo de arquivamento e manipulação de documentos chamado Memex (Memory Extension), no artigo “Como podemos pensar”. Ele pretendia criar uma interface que funcionasse como uma extensão da inteligência humana.

Em 1965, Ted Nelson planejou o Xanadu Docuverse, concebido como uma biblioteca universal de documentos virtuais, e sugere o termo hipertexto. Sua invenção acrescenta outra base do conceito de web – a possibilidade quase infinita de armazenamento de dados, a disposição instantânea e o compartilhamento de arquivos.
Acrescente-se à lista os escritores Júlio Cortázar (“O Jogo da Amarelinha”) e Ítalo Calvino (“Se um Viajante numa Noite de Inverno...”), que também fizeram experiências hipertextuais em suporte impresso ao longo do século 20, além de William Burroughs e Timothy Leary, este último, guru do LSD que no final da vida disse que a droga psicodélica do futuro seria a internet e começou a estudar o assunto.

Os pais biocibernéticos da internet também respondiam, alguns a contragosto, pelo movimento ciberpunk, como os escritores William Gibson, Bruce Sterling, J.G. Ballard, P.K. Dick e etc., só pra ficar nos mais famosos. E o que me dizem dos labirintos e a figura do "Aleph", na obra de J.L. Borges?

Bom tá aí, estou com preguiça pra colocar links nisso tudo. Boa caçada!

Em tempo
Foi lançado ontem Para entender a internet, coletânia de textos organizada por Juliano Spyer e disponibilizada para download gratuito. Tem lá verbetes sobre ciberpunk e cultura hacker, entre outras coisas legais.

Ilustração: "Birth Machine" (1967), de H.R. Giger.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A ve(o)z dos independentes

O principal assunto de hoje em sites e blogs de jornalismo e comunicação é a publicação do The State of The News Media 2009, relatório anual sobre o jornalismo americano, que inclui análise e dados estatísticos de jornais, revistas, internet, TVs, rádio e outros.

O documento, nos últimos anos, tornou-se uma espécie de boletim médico sobre mídias impressas na UTI. Este último não é diferente: aponta quedas em 23% no faturamento dos jornais, falência e perdas em 3/4 no valor das empresas e fechamento de postos de trabalho nas redações. Segundo o relatório, a tendência é piorar.

Mas o declínio da indústria fez surgir uma tendência para empreendimentos na rede que, apesar de ainda modestos, crescem a cada ano, absorvendo parte do contingente de desempregados da imprensa.

São experiências diversas, que abrangem sites sem fins lucrativos (MinnPost.com) e comerciais (The Arizona Guardian); coberturas locais (Voice of San Diego e New Haven Independent ) e internacionais (Globalpost); e especializados (KaiserNetwork, em saúde e o Congressional Quartelly, de jornalismo político).

O Propublica.org (ilustração), por exemplo, promove reportagens investigativas patrocinadas por entidades filantrópicas. Em comum, todos oferecem um ponto de vista original do noticiário.

No Brasil, o quadro ainda é favorável à mídia tradicional e os independentes, raros, como o recém-lançado youPode, por iniciativa de jornalistas cariocas.

Twittermania

Twitter ganha capa da revista Época desta semana, aproveitando a segunda onda da "twittermania". O microblog já mostrou ser eficiente -- apesar de restrito -- em jornalismo para busca de pautas, coberturas online e divulgação (leia neste post do ano passado). Tudo depende do uso que fazemos da ferramenta.

Amanhã, às 18h, o escritor Juliano Spyer disponibilizará em seu twitter o link para donwload gratuito do e-book Para entender a internet - Noções, práticas e desafios da comunicação em rede, que reúne textos de 38 especialistas. Imperdível!

Transparência

Matéria de capa d'O Globo de hoje revela aumento de gastos com cartões corporativos pela Presidência da República com base em levantamento feito no Portal Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Ferderal). O Siafi não é muito simples de ser utilizado, mas já disponibilizou no próprio site um manual de uso. Outra forma mais fácil de se fazer este tipo de pesquisa é recorrer ao Portal Transparência, também do governo.

E, falando nisso, o blog do Noblat desta manhã traz uma postagem interessante, didática até, sobre fraudes envolvendo verbas indenizatórias com o velho golpe das notas fiscais (veja post anterior).

Boa pauta!

sábado, 14 de março de 2009

Curso de jornalismo investigativo

O Centro Knight para Jornalismo das Américas abriu inscrições para o curso online Ferramentas digitais para o jornalismo investigativo, que será realizado de 30 de março a 3 de maio. As aulas são gratuitas e as vagas, limitadas. A preferência é para jornalistas que atuem na área, com pelo menos três anos de experiência. O conteúdo inclui:
  • Técnicas avançadas de investigação de documentos online.
  • Banco de dados oficiais e pesquisa em sites governamentais
  • Web 2.0 e softwares especializados.
As inscrições podem ser feitas pelo site até 19 de março.

Trabalho de equipe

O jornalista Pedro Valente pede ajuda a programadores para cruzar dois bancos de dados: o do CEIS (Cadastro de Empresas Inidôneas e Suspensas), da Controladoria-Geral da União, e a lista de doadores de campanhas do TSE . O objetivo é saber os políticos que receberam dinheiro de empresas com o nome sujo na praça. Diz:
Se esta experiência der certo e alguém responder, quem sabe pode ser o início de uma série de cooperações independentes entre jornalistas e programadores na busca de menos sacanagem com o dinheiro público.
Esse é o espírito da coisa!

sexta-feira, 13 de março de 2009

Seis dicas de sites para fiscalizar municípios

O caderno Cidades do Estadão de hoje publicou matéria sobre gastos ocultos de R$ 3,2 mi da Câmara, referente a valores pagos por serviços de fornecedores não declarados em notas fiscais.

A reportagem poderia fornecer um quadro mais amplo das implicações e o significado disso tudo, mas é uma prerrogativa da edição do jornal que não quero discutir. O ponto é o seguinte: por que este trabalho de fiscalização é tão raro em jornais? Como o jornal de sua cidade cobre a Câmara e a Prefeitura? Será que os escândalos políticos surgem de reportagens ou são fruto de denúncias? Há um acompanhamento depois de denúncias de mal uso do dinheiro público?

O NYT trouxe esta semana uma matéria sobre cidades que podem ficar sem jornal. Para boa parte das cidades brasileiras, infelizmente, acredito que não faria a menor diferença. Um município com graves problemas sociais deve despertar um sinal de alerta. E esse sinal deveria ser instalado em redações.

A internet facilitou bastante o trabalho de fiscalização de poderes públicos. Sem sair da redação, podemos levantar uma boa pauta, consultando sites como:
  1. Junta Comercial do Estado de S. Paulo: para verificar se empresas -- que concorrem a licitações, por exemplo -- possuem o NIRE (Número de Inscrição no Registro de Empresas), que é obrigatório.
  2. Registro.br: site que faz registro de domínios da internet brasileira. Com o endereço do site, pode-se levantar CNPJ e CPF.
  3. Receita Federal: com o CNPJ e CPF de empresas e políticos, é possível consultar situação cadastral e declaração de imposto (empresas com situação irregular, por exemplo, não podem tirar certidão negativa e participarem de licitações).
  4. Tribunal Regional Eleitoral/ Tribunal Superior Eleitoral: dá para acompanhar processos eleitorais envolvendo políticos.
  5. Superior Tribunal de Justiça/ Superior Tribunal Federal: pesquisas por número de processo, nome de partes ou advogados de ações em trâmite.
  6. Tribunal de Contas do Estado/ Tribunal de Contas da União: vale a pena perder um pouco de tempo nestes também, para investigar doação de campanha, prestação de contas, licitações, etc.
Além do acompanhamento dos diários oficiais, lembrando que essa é uma pesquisa prévia que não dispensa gastar sola de sapato. Outra dica básica é não ficar refém de um único tipo de fonte (entrevista, documental, etc.). Quanto maior a diversidade, maior a segurança para garantir uma publicação tranquila. E ter um pós-parto feliz.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Osso duro

Valentões são personagens recursivos nos sertões de Guimarães Rosa e nos pampas de Jorge Luis Borges. Possuem metafísica, ética e linguagem próprias, calcadas na brutalidade do meio em que vivem. Aprendemos com seus códigos de conduta e com a natureza poética de suas pelejas. Sou fascinado pelos contos desses escritores e, quando criança, adorava filmes de bangue-bangue, que compunham a mesma mitologia. Foi o que me lembrei quando assisti ao trailer de "Bronson", sobre a vida do ex-boxeador inglês condenado a 34 anos de prisão, que estréia amanhã no Reino Unido.

Google e eu

Em teste, o novo sistema de publicidade do Google (El País, espanhol) vai usar o histórico de pesquisa do usuário para administrar anúncios nas páginas.

A diferença é que, atualmente, os anúncios se relacionam com a pesquisa realizada. Por exemplo, se busco "fotografia", os links patrocinados na barra lateral direita oferecem desde cursos até câmeras digitais. Com o novo modelo, o histórico de pesquisas armazenados pelos cookies -- arquivos que permitem a troca de informações entre navegador e servidor -- servirá para monitorar os gostos dos usuários, permitindo direcionar anúncios, digamos, customizados.

Comunicação, cada vez mais, adquire ares de guerrilha, em que os cidadãos terão que se defender contra uma máquina publicitária mais sutil e invasiva. Estou exagerando? Por enquanto, é hora de nos livramos desses cookies indigestos.

domingo, 8 de março de 2009

Folha admite erro, pero no mucho

Um dia depois do protesto de cerca de 300 pessoas em frente à sede da Folha, o jornal admitiu, por meio de nota do diretor de Redação, Otávio Frias Filho, que errou ao usar a expressão "ditabranda" em editorial de 17 de fevereiro. Na ocasião, se referia ao fato da ditadura brasileira (1964-1985) ter sido menos repressiva em relação aos seus vizinhos Argentina e Chile, por exemplo.

A declaração porém, é estranha, pois ao mesmo tempo em que admite o erro e afirma que "Todas as ditaduras são igualmente abomináveis", sustenta o fato histórico objeto da comparação. E, não obstante assumir o equívoco, tenta desvalorizar críticas de intelectuais de esquerda.

A respeito disso, dois pontos: primeiro, comparar ditaduras e genocídios para saber quem matou ou torturou mais não ameniza a gravidade dos eventos. Segundo, a despeito da aposição ter assumido uma postura ideológica obsoleta e muito chata, também não justifica desmerecer a reação de leitores, como fez o jornal.

Nota da Folha
O uso da expressão "ditabranda" em editorial de 17 de fevereiro passado foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis.

Do ponto de vista histórico, porém, é um fato que a ditadura militar brasileira, com toda a sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena -ou que a ditadura cubana, de esquerda.

A nota publicada juntamente com as mensagens dos professores Comparato e Benevides na edição de 20 de fevereiro reagiu com rispidez a uma imprecação ríspida: que os responsáveis pelo editorial fossem forçados, "de joelhos", a uma autocrítica em praça pública.

Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos das ditaduras de esquerda com as quais simpatizam.
Foto: Jailton Garcia (Vermelho.org)

sábado, 7 de março de 2009

O melhor de Watchmen

Ainda não pude conferir o filme, que deve ser bem legal. Geralmente, deixo para assistir em DVD, mas, poxa, é Watchmen, bicho! Uma coisa, porém, posso dizer: o melhor não está no cinema. Está na própria HQ.

O motivo é simples. É uma questão de linguagem. A inovação de Alan Moore e Dave Gibbons foi tecer uma narrativa complexa, com camadas de significados, e desconstruir o do mito do super-herói (que Moore também fez em Supremo e, principalmente, em Miracleman, meu preferido, infelizmente muito mal editado no Brasil).

O filme é apenas uma tradução intersemiótica, não trazendo nenhuma novidade em termos de linguagem cinematográfica, o que não significa que não seja muito divertido.

A dica é aproveitar a publicação da edição definitiva. O preço é salgado e é bom ficar atento a promoções. São 460 páginas, incluindo material extra com roteiros e Moore e esboços de Gibbons, cujo grosso foi reunido em bastidores. Coisa fina.

Controle de qualidade

Paulo Machado, ouvidor adjunto da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), defende em sua coluna de ontem a implantação de mecanismos internos para controle de qualidade em veículos de comunicação. Segundo ele, um levantamento feito na Agência Brasil apontou erro em 40% das matérias, que incluem gramaticais, de digitação, de padronização, de apuração ou informações erradas. Diz:
Se um erro médico pode causar a morte do paciente, quais os danos que um erro de informação jornalística pode causar ao leitor? Essa é uma pergunta que todo jornalista deveria se fazer diariamente, várias vezes ao dia, ao ter que tomar inúmeras decisões no processo de produção da noticia.
Lembra ainda que qualidade e exatidão estão ligados à credibilidade, o maior patrimônio que uma empresa do ramo pode ter.

No blog da Reni (Rede Nacional de Observatórios de Imprensa) encontrei links para centros de monitores de mídia.

***
Diploma
A academia em Portugal também discute a farra das faculdades de jornalismo. O artigo Vale a pena uma licenciatura em jornalismo? (PDF), publicado no último número dos Cadernos de Jornalismo, João Figueira e António Granado, propõe:
  • Encontro nacional para debater prioridades, tendências e carências do setor.
  • Introdução de matérias que forneçam subsídios para os alunos abrirem seu próprio negócio.
  • Estágios de férias.
  • Observatório para "mapear" o mercado.
  • Congelamento de novos cursos de jornalismo.
Toco a bola pra vocês.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Paraísos artificiais, infernos reais

The Economist, uma das mais influentes publicações do mundo, ratificou ontem sua posição favorável ao fim da campanha antidrogas e a legalização de narcóticos. Em matéria de capa, classifica a guerra contra das drogas como um "desastre", "assassina e inútil" e que não justifica um gasto anual de US$ 40 bilhões aos cofres públicos.

Para a revista, a política "menos ruim" é a legalização. Menos ruim significa que, sanando um problema, criam-se outros (para consumidores), mas com danos mais controláveis.

A atual política de drogas é um equívoco. Se é mantida, acredito que seja por interesses econômicos. Atualmente, a indústria ilegal movimenta US$ 320 bilhões por ano. Legalizar provocaria um estrago maior que seis Madoffs juntos.

Semântica
"Guerra" é um despropósito sem tamanho. Primeiro, porque pressupõe que o mercado não esteja assimilado a governos e atividades financeiras legais, como bancos usados para lavagem. Em segundo lugar, é de uma hipocrisia sem fim: todos nós usamos drogas. Todas civilizações estabelecem seus códigos socioculturais em relação às drogas. A nossa é conivente com tabaco, álcool, açúcar e café. O álcool, em particular, é uma das substâncias mais destrutivas.

Por isso, posições como a da Comissão Latino-Americana sobre Drogas representam um avanço. Seria bom ver publicações nacionais tendo uma postura editorial mais corajosa sobre o assunto. É o momento certo, em que superamos a era de apologias dos movimentos jovens dos anos 60 e 70.

Seria prudente usufruir do estado de desintoxicação ideológica para ficarmos chapados de lucidez.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Nunca fomos modernos

A notícia de que o arcebispo de Olinda excomungou toda equipe médica que fez o aborto na menina de 9 anos de idade estuprada pelo padrasto revoltou muita gente. Mas o clérigo está correto, fez o que se podia esperar de alguém em seu cargo.

Tecnologia, direitos humanos, TV a cabo, viagra e restaurantes self-service, entre outras invenções humanas, nos dão a ilusão de que a Humanidade caminha para uma espécie de síntese histórica. E que, ao longo desse caminho iluminado, deixamos gradualmente o abismo da irracionalidade.

Esquecemos o fato de que a maior parte do mundo não compartilha nossos ideais de civilização e cultura. Nem de democracia, liberdade e muitos menos de secularização. A maioria da humanidade habita uma realidade assombrada pelos demônios.

Além disso, uma parcela considerável de pessoas vive bem de uma dieta a base de deuses, autoajuda, anjos e extraterrestres. Alguns até não se incomodam de usar burca ou mesmo vestir um cinturão de bomba. E nem por isso deixam de comprar um celular de última geração, sem se incomodarem em assumir uma identidade moderna.

Portanto, não é porque um sacerdote ou outro seja mais liberal, "moderno", que podemos querer que a Igreja assuma, no mercado de almas, uma postura que não é dela.

Razão é algo muito raro, não hoje, mas sempre. E, pior, ocupa um cômodo estreito e mal ventilado no subúrbio do self. Mas esse já é um bom motivo para querer preservá-la.

Melhor é ser excomungado.

Ilustração: Reprodução de "Stydy after Velazquez's Portrait of Pope Innocent X" (1953), de Francis Bacon (1909-1992).

quarta-feira, 4 de março de 2009

Questão de método

Disponível para download gratuito, o e-book Online journalism: research methods. A multidisciplinary approach in comparative perspective (em inglês e espanhol), editado por Marcos Palacios e Díaz Noci numa colaboração Brasil-Espanha, reúne metodologias de análise de jornalismo na internet e uma excelente revisão bibliográfica sobre convergência, narrativa hipertextual, base de dados, etc.

Pesquisas de cunho empírico, principalmente, muito útil para orientar alunos perdidos com monografias pelo país afora.

Previsão de tempo

Parece que o ano começou pra valer esta semana, pelo menos é essa a impressão que tenho a respeito de meus compromissos. Na faculdade, organizei três cursos tipo work in progress e interligados. Explico.

O contexto é a crise dos impressos e do jornalismo contemporâneo. Num mais teórico, discutimos sua natureza mais profunda na limitação de valores da modernidade, que fundamentam coisas como democracia e liberdade de imprensa. Daí passamos para uma discussão sobre ética, que se pauta por redes de comunicação que impõe novas receitas de produção e recepção - o que tem tudo a ver com o compromisso ético do jornalista. Por fim, métodos e técnicas de reportagem investigativa, como forma de reafirmar a importância do jornalismo junto à comunidade.

É uma proposta.

Em geral, a imprensa anda muito comportada. Os recentes escândalos políticos que terminaram (?) com as saídas estratégicas do deputado Edmar Moreira e do diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, por conta de imóveis luxuosos cujos valores não eram compatíveis com o contracheque, foram bolas cantadas. A fiscalização, de modo geral, anda frouxa, não fosse pelo TSE.

Se dos bancos universitários não sair uma turma mais antenada, pra dizer o mínimo, não vai valer a pena mesmo comprar jornal na banca ou baixar no blackberry, or whatever.

A Folha deu o pontapé inicial e está fazendo a lição de casa: integrando redações e valorizando sua "web orgânica semântica", ou seja, os profissionais que pensam. No Observatório de hoje, Alberto Dines também aponta, nesta mudança, a esperança de manutenção do contraditório, no cenário do vergonhoso caso da "ditabranda".

Novos rumos, não é? Vamos nessa. Espero que sejam péssimos dias para os copidesques de B.Os.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Isto é Chomsky

Chomsky continua coerente em suas posições políticas. Em entrevista à revista Isto É desta semana, fala de Lula, MST, Obama, América Latina e Gaza. Gosto de Chomsky, mesmo naquilo em que discordo - acho que poderia, por exemplo, ser mais crítico quanto aos governos populistas com retórica esquerdista de Evo Morales e Hugo Chávez. Mas sempre vale a pena acompanhar seus argumentos, dissonantes com o que lemos nos editoriais da imprensa, coisas como:
O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força.

domingo, 1 de março de 2009

Sessão descarrego

Um fantasma ronda as salas de aulas dos cursos de jornalismo do país. É o fantasma da obsolescência.

O governo já nomeou sua equipe de ghostbusters, chefiada pelo veterano José Marques de Melo, mas o ano ainda pode trazer uma reviravolta, caso o STF decida fincar uma estaca prateada benzida nos cursos de graduação, acabando com a farra dos canudos.

O que fazer? Nos erguemos da tumba para discutirmos o assunto? Pelo menos é terapêutico.

Exumar o corpo
O número de cursos de graduação em jornalismo no país é impreciso. Dados do Ministério da Educação apontam 370 cursos/habilitações, mas não levamos em conta graduações correlatas, por exemplo. Para fins comparativos, é menor que medicina (517) e maior que odontologia (204).

O fato incontestável, empírico, é um contingente de formandos que não são absorvidos por um mercado cada vez mais restrito. E, despreparados, são carne para abatedouro.

Ressurreição
Já estamos putrefatos de saber que jornalismo se aprende na prática e bla-bla-bla. O que, então, um curso deve oferecer? As artes e ofícios do pensamento crítico, sem dúvida, se a intenção for tornar a profissão menos macabra. Mas, se fosse somente isso, bastava fazer filosofia.

Outra obviedade é a aquisição de novas habilidades em tecnologias. Não a tecnologia em si, que vira pó ao primeiro amanhecer, mas como relacioná-la com a prática. A profissão, dizem, vive em permanente estado beta (para os mais chatos, alfa, de hipnose).

Um terceiro lugar-comum (assim espero) é a suplantação de uma grade midiática por uma multimidiática: por que separar edição em impresso, rádio e TV se tudo converge para internet e, no final das contas, a informação deve ser "empacotada" em diferentes formatos?

Pacto
Uma proposta que pouco vejo por aqui é tratar o jornalismo como negócio, ou, como diz James T. Hamilton em All The News That's Fit to Sell: How the Market Transforms Information into News (uma brincadeira com o slogam do NYT: "Todas Notícias que Valem a Pena Vender: Como o Mercado Transforma Informação em Notícia"), a notícia como commodity.

Sejamos desavergonhados: o que é bom precisamos copiar, então nada melhor que observar a miséria do vizinho e ver como ele está enfrentando seus demônios, para nosso exorcismo doméstico. Me refiro, claro, à crise do impresso nos Estados Unidos e suas consequências para o jornalismo.

Xô, ave agourenta!

Foto
: fachada de prédio no centro velho de Santos.

Los muertos de Juárez

Que pauta! Reportagem do El País acompanha patrulha da Polícia Federal numa das cidades mais violentas do mundo, Ciudad Juárez, na fronteira do México com os Estados Unidos, onde a guerra dos cartéis das drogas matam cinco jovens por dia, ao melhor estilo dos traficantes cariocas.

Há semanas que espero uma matéria de fôlego por aqui sobre a onda de violência no México. Por onde andam estes correspondentes?

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Para não ser injusto, aproveito para divulgar dois trabalhos muito bacanas de jovens correspondentes internacionais da Folha e do Estadão, para quem não conhece: Raul na China (que estava na Índia, agora em Teerã) e Diário do Oriente Médio. Olhares sobre cultura e política. O que Marco Polo faria se tivesse um blog.

Ilustração: Reprodução de O Eco do Pranto (1937), do muralista mexicano David Alfaro Siqueiros (1896-1974)