
Um fantasma ronda as salas de aulas dos cursos de jornalismo do país. É o fantasma da obsolescência.
O governo já nomeou sua equipe de
ghostbusters, chefiada pelo veterano José Marques de Melo, mas o ano ainda pode trazer uma reviravolta, caso o STF decida fincar uma estaca prateada benzida nos cursos de graduação, acabando com a farra dos canudos.
O que fazer? Nos erguemos da tumba para
discutirmos o assunto? Pelo menos é terapêutico.
Exumar o corpoO número de cursos de graduação em jornalismo no país é impreciso. Dados do
Ministério da Educação apontam
370 cursos/habilitações, mas não levamos em conta graduações correlatas, por exemplo. Para fins comparativos, é menor que medicina (517) e maior que odontologia (204).
O fato incontestável, empírico, é um contingente de formandos que não são absorvidos por um mercado cada vez mais restrito. E, despreparados, são carne para abatedouro.
RessurreiçãoJá estamos putrefatos de saber que jornalismo se aprende na prática e bla-bla-bla. O que, então, um curso deve oferecer? As artes e ofícios do
pensamento crítico, sem dúvida, se a intenção for tornar a profissão menos macabra. Mas, se fosse somente isso, bastava fazer filosofia.
Outra obviedade é a aquisição de novas habilidades em tecnologias. Não a tecnologia em si, que vira pó ao primeiro amanhecer, mas como relacioná-la com a prática. A profissão, dizem, vive em permanente estado beta (para os mais chatos, alfa, de hipnose).
Um terceiro lugar-comum (assim espero) é a suplantação de uma grade midiática por uma
multimidiática: por que separar edição em impresso, rádio e TV se tudo converge para internet e, no final das contas, a informação deve ser "empacotada" em diferentes formatos?
PactoUma proposta que pouco vejo por aqui é tratar o
jornalismo como negócio, ou, como diz James T. Hamilton em
All The News That's Fit to Sell: How the Market Transforms Information into News (uma brincadeira com o slogam do
NYT: "Todas Notícias que Valem a Pena Vender: Como o Mercado Transforma Informação em Notícia"), a notícia como
commodity.
Sejamos desavergonhados: o que é bom precisamos copiar, então nada melhor que observar a miséria do vizinho e ver como ele está enfrentando seus demônios, para nosso exorcismo doméstico. Me refiro, claro, à crise do impresso nos Estados Unidos e suas consequências para o jornalismo.
Xô, ave agourenta!
Foto: fachada de prédio no centro velho de Santos.