domingo, 31 de maio de 2009

Chame o ladrão

Antes que o dia termine, registro duas coisas bacanas dos dominicais. No Estadão, o Blog da Metrópole foi sujar as solas dos sapatos na favela e voltou com uma boa matéria com depoimento dos moradores sobre abuso de poder da Polícia Militar.

Diz o repórter Bruno Paes Manso:
Ouvi relatos que me embrulharam o estômago, como surras em mulheres, crianças e humilhação a senhoras com mais de 60 anos. Ouvi o depoimento diretamente das pessoas que sofreram abusos, que se emocionaram e choraram na minha frente. Crianças me disseram como apanharam.
Na matéria de capa de O Globo, a reportagem investigativa O batalhão dos matadores é amparada por documentos oficiais e uso de câmeras ocultas (que o manual aprova em matérias de interesse público em que outros métodos não teriam eficácia).

Boa semana a todos!

sábado, 30 de maio de 2009

O sabor das palavras

Há alguns anos, comprei uma panela de barro. Também tenho uma de ferro, muito boa. Mas minha relação com a cozinha não anda lá essas coisas. Passo a maior parte do tempo no escritório, lendo e escrevendo. Cozinhar e comer, ler e escrever, são atividades muito parecidas. E que se tornam mais prazeirosas no inverno.

Poucos filósofos tinham estilo como Schopenhauer. Tanto que o alemão agradava literatos do porte de Machado de Assis, J. L. Borges e Thomas Mann. Ele registrou algumas das mais interessantes reflexões a respeito dos livros no seu famoso Parerga und Paralipomena. Lê-se:
"E assim como o estômago se estraga pelo excesso de alimentação e, desta maneira prejudica o corpo todo, do mesmo modo pode-se também, por excesso de alimentação do espírito [com a leitura], abarrotá-lo e sufocá-lo."
E ainda:
"(...) e só com ela [a ruminação] é que nos apropriamos do que lemos, da mesma forma que a comida não nos nutre pelo comer mas pela digestão. Se lemos continuamente sem pensar depois no que foi lido, a coisa não se enraíza e a maioria se perde."
O que Schopenhauer quer dizer é que não adianta somente ler, tem que entender. Processar a coisa, digerir e, assim, nutrir o "espírito". A única finalidade de ler deveria ser aprender a pensar por conta própria.

Schop ainda vai dizer que somente bons livros fazem isso pela gente. Devemos, portanto, fugir dos "besta sellers" como fugimos do ovo colorido e do torresminho amanhecido do boteco da esquina. Mas isso, é claro, varia conforme o paladar...

Receita de bolo
Fazer um bolo é uma atividade intelectual. Jogar futebol, idem. Achou estranho? Pois é, sabe aquele papo de teoria e prática? Pura bobagem. Em nosso cotidiano as coisas andam juntas, só aprendemos a pensar dualmente na escola.

Em ciência, observa-se o mundo, elaboram-se hipóteses, constroem-se teorias e aplica-se para ver se funcionam. Palmirinha e Einstein tem muito em comum. A cozinha é uma espécie de laboratório.

E o futebol? Confesso minha completa ignorância neste assunto. Mas sei que é um esporte em que pensamento e pernas movem-se numa sincronia que, infelizmente, me faltam completamente.

Solve et coagula
A maioria das pessoas costuma ver os livros como algo excessivamente intelectual, a menos que seja um de receitas ou o I Ching, que são feitos para serem usados.

Curto muito uma metáfora -- que, salvo engano, li em Mil Platôs -- que compara teorias com caixas de ferramentas. É algo que sempre insisti em sala de aula. Ler, entender e aplicar. Se não servir para apertar os parafusos certos, trocar de ferramenta.

As ideias não foram feitas para ficarem dentro do cérebro. Precisam de ar fresco para germinarem (se bem que em algumas cabeças há adubo de sobra).

Ler/escrever é uma operação alquímica, da mesmo forma que comer/cozinhar. Tem que ocorrer alguma transformação, caso contrário é mentirinha. A reflexão, a conversa com amigos, a aula, os blogs, o cotidiano, tudo isso são etapas da digestão.

Vai deixar de provar?

Foto: Fickr.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Abraji abre inscrições para congresso

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) abriu inscrições para o 4º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, que acontecerá em São Paulo, na Universidade Anhembi Morumbi, nos dias 9, 10 e 11 de julho.

Os temas deste ano são coberturas sobre a Amazônia e Crime Organizado. O valor da inscrição, com desconto até dia 19 de junho, é de R$ 200 para jornalista e R$ 110 para estudante (não-sócios).

Confiram a programação.

(caros colegas, para esse evento vale a pena sacrificar a cervejinha e o motel final de semana. O difícil é montar a grade, porque os workshops ocorrem simultaneamente. Recomendo, para quem nunca fez, as aulas de RAC e uso de banco de dados.)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Jornalismo de precisão: um curso

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) abriu esta semana inscrições para o curso online de desenvolvimento humano. O treinamento é gratuito e tem o objetivo de ensinar jornalistas a trabalharem com dados socioeconômicos. As inscrições podem ser feitas até o dia 1 de junho. Serão cinco semanas de aulas, com início em 5 de junho.

O programa consiste em ensinar como encontrar e manipular dados referentes a IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e Educação, entre outros, além de usar o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil.

A associação possui um hotsite sobre o assunto. Bem legal.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Vai trabalhar, vagabundo

Esse é aquele tipo de pesquisa em que a gente se pergunta "Como poderíamos viver sem saber disto!". Mas muitos homens irão se identificar com o gordinho do gráfico. Enfim, deu na The Economist: ranking dos 18 países em que os homens tem mais "tempo livre" que as mulheres.

Itália em primeiro lugar, com 80 minutos de ócio a mais para os machos, que não querem saber de ajudar a patroa a lavar a louça, picar a cebola ou levar o lixo pra fora. A leitura dos dados é que países católicos tem maridos mais... digamos, tranquilos.

Nós brasileiros, pelo visto, não temos nada a ver com isso.

Os fora da lei

O Estadão voltou hoje a cobrar os congressistas para que votem uma nova Lei de Imprensa. Com o fim da antiga, sepultada pelo STF sob aplausos da mídia, não há mais parâmetros para o julgamento das milhares de ações em trâmite contra jornalistas no país. Pior também para os leitores, pois não há especificações quanto ao direito de resposta.

A antiga lei era, em alguns de seus artigos, arbitrária. Já foi tarde. Mas o respaldo jurídico é importante para garantir que repórteres e empresas não sofram pressões financeiras, com ameaças de processos milionários, e para os cidadãos, que ficam a mercê da boa vontade dos jornais em publicar retratações e reconhecer erros.

Diz o editorial:
Segundo os especialistas, as lacunas mais importantes dizem respeito a direito de resposta, pedido de explicações, retratação, retificação espontânea, sigilo de fonte, exceção da verdade, cálculo da indenização por danos morais, garantias dos jornalistas e competência da ação. Diante das especificidades técnicas no campo do jornalismo, o "apagão jurídico" provocado pela revogação da Lei de Imprensa deixou jornais, revistas, rádios e televisões, além de promotores e juízes, sem regras claras que balizem principalmente as situações de conflito entre os direitos da informação e os da proteção à honra e à imagem (...)
Sob a justificativa de que não há mais na ordem jurídica brasileira qualquer legislação sobre crimes de imprensa, alguns juristas e magistrados estão propondo a extinção e o arquivamento de todos esses processos, enquanto outros defendem a aplicação de dispositivos correlatos existentes no Código Civil, no Código Penal e no Código de Processo Penal. O problema é que estes dois últimos textos legais se destacam por seu anacronismo, pois foram editados entre 1940 e 1941 pela ditadura varguista do Estado Novo.
Imprensa
A Folha se pronunciou a favor de uma nova Lei de Imprensa, em editorial, no dia 3 de maio. O assunto também é destaque na edição da Revista Imprensa deste mês.

terça-feira, 19 de maio de 2009

As mídias de Mr. Spock

Há algum tempo venho lendo fc com atenção para o seguinte fato: em literatura, avanços tecnológicos previstos em termos de transportes (viagens espaciais, of course) nem sempre são acompanhados por desenvolvimentos similares em meios de comunicação.

Isto é, temos espaçonaves que viajam à velocidade da luz ou entram em warmwhole, mas quando se tratam de mídias, quase sempre é repisado o videofone (hoje, Skype) e outras versões da TV.

Nestes temos, a realidade contemporânea está a anos luz de distância da literatura mais delirante. Bom, é apenas uma hipótese...

Uma coisa bacana sobre isso foi a galeria de fotos que o Guardian publicou para o lançamento de Star Trek, que mostra como a turma de Kirk, Spock e Dr. McCoy, na série original dos anos 60, anteviram aparelhos celulares, PDSs, TVs de plasma, bluetooth e videoconferência, entre outros gadgets.

Vida longa e... vocês sabem o resto.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Batman, 70

Não sei bem como foi que aconteceu. Lembro da minha mãe voltando das lojas Americanas trazendo um pacote com revistas encalhadas da Ebal. Não sei se fui mais feliz na minha vida do que naquele momento, mas com certeza foi o melhor presente que ganhei.

Como dizia, não estou certo de que foi a primeira vez que tive contato com HQs. Elas parecem ter sido sempre parte de mim.

Quando adquiri um pouco mais de autonomia, sabe qual a foi a primeira coisa que fiz? Banca de jornal. Até hoje, aliás, adoro uma banca de jornal (será por isso que virei jornalista? Sei lá).

Mas desde o começo o Batman estava lá. Nos gibis, na TV (naquele seriado clássico com o Batman barrigudo e o Robin falando "santa isso, santa aquilo") e nos maravilhosos batmóveis que vendiam na época. Um desses batcarros sobreviveu ao tempo e foi herdado pelo Lucas, que se encarregou de "dar pt" no troço.

Na segunda metade dos anos 80, surgiu o "Cavaleiro das Trevas" de Frank Miller, um Batman selvagem, bem a calhar para um garoto cheio de hormônios que ouvia punk rock e se dizia anarquista. É da mesma safra "Watchmen", do titio Moore. E depois disso todos aqueles quadrinhos dos anos 70 ficaram muito infantis... fuck!

Então é por isso que "ele" esteve sempre presente.

E o que menos importa nessa história é aquele papo do órfão milionário cujos pais são assassinados e que, a partir de então, dedica sua fortuna e tempo a um treinamento insano para se vestir de morcego e espancar punguistas à noite.

Hã-hã. Essa é somente a senha. Ou melhor, as regras do jogo.

Batman é, essencialmente, um canal de comunicação com o mito. É disso que os heróis são feitos.

Parabéns, velho morcego!

4 x Eisner!

Nova York: a vida na grande cidade (Companhia das Letras, R$ 55), de Will Eisner (1917-2005), um dos maiores quadrinhistas de todos os tempos, é o primeiro lançamento do selo Quadrinhos na Cia. da editora. A previsão para chegar às livrarias é 22 de maio, mas a obra já pode ser adquirida online na pré-venda.

Para quem não tem nada em casa do mestre da "arte sequencial" é uma boa oportunidade. O livro reúne quatro graphic novels (foi Einser, aliás, quem popularizou esse formato) escritas nos anos 80 e 90: Nova York: A Grande Cidade, O Edifício, e os inéditos Cadernos de Tipos Urbanos e Pessoas Invisíveis.

Imperdível!

terça-feira, 12 de maio de 2009

Lançamentos

Numa entrevista recente publicada em vídeo no Estadão, o escritor e jornalista Gay Talese meteu as mãos no bolso do paletó e puxou papéis cartonados, daqueles que vem dentro de camisas sociais, para mostrar o que usa para fazer anotações, quase sempre após as entrevistas. Depois repassa tudo para sua máquina de escrever elétrica.

Vida de Escritor (Companhia das Letras, R$ 59), recém lançado no Brasil, é menos uma biografia do que uma lição de como bom jornalismo que se faz com histórias bem contadas, insistências e derrotas. Seja com canetas ou computadores.

O Livro dos Insultos (Companhia das Letras [reedição], R$ 46), traduzido por Ruy Castro, é uma coletânia de aforismos bem humorados e nada convencionais do jornalista americano Henry-Louis Mencken (1880-1956), que influenciou figuras como Paulo Francis. Divertidíssimo.

Jornal da terceira idade

Com o tempo, vai ficando chato. O argumento que se repete, como um mantra. Um evangelho profano, talvez. Me refiro à minha insistência, que os parcos leitores do RP e meus alunos toleram com resignação (I guess), de que jornalismo só serve cumprir sua função pública de fiscalizar os poderes.

Mais recentemente, disse que o grande diferencial para um jornal na Baixada Santista seria aquele que conseguisse independência financeira e editorial para adotar uma postura mais crítica. Por essa razão, li com certa esperança (e ceticismo), o artigo O parto da montanha, de Ivan Berger, no Observatório de hoje.

Berger afirma que a A Tribuna, um dos jornais mais antigos do país (1894), passa por mudanças que aos poucos refletem no noticiário regional, mais contundente. Espero que sim. Confesso que gostaria muito de ler notícias de minha cidade ou assistir um telejornal sem a bílis reclamar, ofendida.

Coisas de velho.

Foto: Casa dos Azulejos, centro de Santos.

domingo, 10 de maio de 2009

Livro sobre jornalismo cidadão

Jornalismo cidadão: informa ou deforma?, de Maria das Graças Targino (UNESCO, IBICT - R$ 25) é mais um esforço para tentar desvendar a participação do público na produção de notícias no Brasil. A conferir (o título é sugestivo).

Saravá!

Apocalípticos e integrados

Recomendo a todos, principalmente futuros repórteres, a leitura do caderno Mais da Folha de hoje. A matéria de capa é sobre o debate -- na forma de troca de emails -- entre Steven Johnson e Paul Starr a respeito do futuro do jornalismo. A íntegra do material foi disponibilizada online (o original foi publicado na revista Prospect).

A discussão é interessante porque sintetiza dois pontos de vistas bem demarcados entre os apocalípticos, que acreditam que o fim dos impresso acarretará no fim do jornalismo independente e analítico (ponto de vista que compartilho, caso interesse a alguém), e os integrados, que acham que a internet vai prover um novo jornalismo, mais dinâmico, livre e pluralista.

Steven Johnson, um dos teóricos das novas mídias mais influentes, é o "integrado" da história. O sociólogo Paul Starr, que tem escrito artigos sobre a questão, o "apocalíptico". Pode parecer meio cafona e simplista distinguir assim as ideias, mas peco pelo didatismo para aproximar os estudantes do assunto, que tem a ver com o futuro da profissão.

Mito
Meu parecer é o seguinte: são óbvios os benefícios trazidos pela intenet, em termos de divulgação de dados públicos, novas ferramentas de investigação e recursos narrativos, além da maior interatividade que aproxima os profissionais dos leitores. Mas achar que só porque um cidadão abre um blog ele já está fazendo jornalismo e, mais do que isso, que o maior volume de informações significa mais conhecimento e engajamento político, é um dos mitos mais recorrentes na rede.

Boa leitura!

Foto: Flickr.