Manias todos nós temos, e tenho lá as minhas nerdices também. Com o tempo, algumas se tornaram trabalho, outras não passam de diversão. O conceito de 'realidade' trafega em ambas as vias já há alguns anos, sem que saiba exatamente o que fazer com ele.Distraído com o Caderno 2 do Estadão de hoje, li a tradução dessa matéria do NYT sobre manipulação de fotografias, com o 'gancho' das mais recentes evidências no caso Capa (foto).
Nada demais. Manipulações de fotos acontecem desde a invenção da técnica. Apenas se tornaram mais banais com a digitalização. O ponto é que, enquanto as fotos 'analógicas' tinham um referente real, as digitais não remetem mais, necessariamente, a uma realidade externa, mas a um banco de dados.
Mas isso é papo muito cabeça pra um domingo de sol.
***
Esta semana, folheando de bobeira alguns jornais locais (taí outra mania, jornais), peguei duas matérias com enfoques absurdamente diferentes em duas publicações distintas. O problema é que nenhuma era honesta com o fato. Pensei então o quanto de ficção encontramos em jornais, que deveriam ter um compromisso com a realidade, como as fotos 'analógicas'.Essa história de real é muito complicada mesmo. Dois de meus autores preferidos, J.L. Borges e Phillip K. Dick, construíram vários jogos de realidade em seus contos e romances, para mostrar como esse troço que chamamos 'real' é esquisito.
Mesmo no jornalismo, há quem diga que a objetividade é uma quimera, da estirpe de Pégasus ou Medusa. Bobagem. Poderia apresentar argumentos técnicos para contestar isso, mas não é o lugar e nem deve interessar.
Jornalismo tem, sim, um contrato assinado de respeito à realidade, mesmo que não tenhamos muita certeza do que seja tal coisa. O caso, porém, é que muitas vezes faz ficção, violando seu acordo com o leitor.
Agora, como saber?
Quem se dedica ao assunto por ofício, costuma ler e comparar jornais diferentes e ainda recorrer a pesquisas e análises de especialistas, observatórios etc. Anos atrás, num documentário, Chomsky dizia, com razão, que isso era trabalho para experts. Não se podia esperar que pessoas comuns tenham tempo para mergulhar em quilos de papéis todos os dias para depurar as notícias.
***
Mas será que todo cidadão não poderia melhorar a leitura de jornais? Não tem muito segredo. Não há nenhuma teoria da conspiração envolvendo os Illuminatti, os Templários e a Maçonaria para esconder estatísticas da gripe H1N1.Se não me engano, foi Paul Valery que disse que o mais profundo que podemos atingir é a pele. Creio que vale o mesmo para páginas impressas.
Perguntas básicas sobre as fontes daquilo que está sendo afirmado podem facilmente desmanchar a torre de Sauron. Em geral, ficções-noticiosas são construídas em gabinetes e, muitas, de forma pouco sofisticada. Carecem de sustentação, fontes básicas, pessoas comuns, outros lados, etc.
Longe dos fatos, matérias jornalísticas ficam debilitadas como o Homem-Pássaro longe do Sol.
Mas e quando a realidade não ultrapassa o umbral da redações e permanece um objeto estranho, uma singularidade, uma margem, uma anomalia, um "cisne negro", um ponto cego de nossa percepção? O que acontece quando as palavras não vem com o cheiro de rua, mas de repartições?
O apelo da ficção de melhor qualidade, na literatura, parece sensato.
Saravá!



