Se não estou enganado, passou batida pela imprensa brasileira a entrevista com Jürgen Habermas publicada 30 de abril no Financial Times, que só tive tempo de ler hoje. Nela, encontramos uma das raras reflexões do filósofo sobre o papel político da internet nas sociedades atuais, além de comentários sobre a crise fiscal na Grécia que "derreteu" o euro, um dos lastros da União Europeia.O "gancho" da matéria foi um fake de Habermas no Twitter feito por um estudante brasileiro (!?!) que faz doutorado nos Estados Unidos com bolsa da Fulbright. Entre outras coisas, o "falso Habermas" postou comentários sobre a internet que estão na nota de rodapé de um artigo de Habermas (o verdadeiro), publicado em 2006.
Por que não consultar o filósofo sobre o assunto? Foi o que Stuart Jeffries fez por email.
Esfera pública
No clássico Mudança Estrutural da Esfera Pública, de 1962, Habermas trata da deterioração de uma esfera pública de debates no apogeu da era da comunicação de massa. Como analisaria essa mesma transformação em tempos de redes sociais e comunicação "horizontal" na web?
[Interessante como esta discussão também passa pelo jornalismo crítico como pilar da democracia e as dificuldades práticas (incluindo financeiras) de transportá-lo para a internet, que tanto conversamos por aqui.]
"A internet gera uma força centrífuga", diz [Habermas]. "Ela libera uma onda anárquica de circuitos de comunicação altamente fragmentados que raramente se sobrepõem. Claro que a natureza espontânea e igualitária de comunicação ilimitada pode ter efeitos subversivos em regimes autoritários [como no recente caso do Irã]. Mas a web em si mesma não produz qualquer esfera pública. Sua estrutura não é adequada para focalizar a atenção de um público disperso de cidadãos que formam opiniões simultâneamente sobre os mesmos temas e contribuições que tenham sido analisadas e filtradas por peritos. " [grifos meus]O filósofo alemão emprega um termo leibniziano -- mônadas eletronicamente conectadas -- para descrever o caráter isolado do uso da internet que, por esta razão, não formaria uma esfera pública de discussão crítica, pelo menos não no sentido que Habermas confere ao conceito.
O fato da rede permitir uma participação direta por meio de comentários e ferramentas de publicação não significa que temos condições para construir um parlamento digital, uma ágora eletrônica. Ainda mais no Brasil, onde temos que suprir problemas de educação básica.
Escola de Frankfurt
Como bem lembra o jornalista, devemos ter em vista o contexto teórico no qual Habermas se insere, de uma crítica marxista que fez sucesso entre seus pares da Escola de Frankfurt. Mas, como dizia vovó, é sempre bom ouvir os mais velhos...
[Há pouca produção teórica relevante sobre o assunto (alguém quer um tema de pesquisa?) e, de modo geral, políticos brasileiros tratam as redes como se fossem TV ou jornal.]
Crédito da foto: Steve Pyke/ Getty



