
Quando eu nasci/ um anjo louco muito louco/ veio ler a minha mão/ não era um anjo barroco/ era um anjo muito louco, torto/ com asas de avião/ eis que esse anjo me disse/ apertando a minha mão/ com um sorriso entre dentes/ vai bicho desafinar/ o coro dos contentes/ vai bicho desafinar/ o coro dos contentes/ let's play that.
(Torquato Neto)
Há três anos e quatro meses, 414 postagens atrás, abri o RP com uma definição nada canônica da profissão. Jornalismo: desafinar o coro dos contentes. Segui firme nesta crença. E, no decorrer do período, insisti em outras: a necessidade da incorporação de novas tecnologias às redações; a mudança curricular nas escolas de jornalismo; a valorização do jornalismo analítico como forma de 'salvar ' o impresso (se é que precisa ser salvo...); a vocação iluminista do ofício; a aprendizagem constante e a experimentação.
Hoje, vemos que muitos jornais, até mesmo no interior, seguiram alguns dos caminhos discutidos por aqui, e os profissionais, aos poucos, aceitam o diálogo proposto pelas redes. O leitor, afinal, reclama o reinado que sempre foi seu de direito. As faculdades, por sua vez, depois da queda da obrigatoriedade do diploma, precisam justificar sua relevância. São agora obrigadas a seguir a máxima mcluhaniana: TROQUEM DE PELE!
Blogosfera
Quando comecei, blogs eram o suprassumo da produção online. Hoje, uma trivialidade. A capacidade de gerar conteúdo não somente abriu uma avenida de mão dupla no fluxo unidirecional da comunicação como também colocou em primeiro plano a necessidade de filtrar informações.
Passamos a entender que não somos mais emissores, mas... linkadores. Jornalistas e professores deixaram de ser pólos privilegiados de informação. O que nos confere crédito e alguma importância é nossa capacidade de conectar, contextualizar, explicar, analisar/sintetizar e refinar informações para o nosso público. Fazer, num de meus palavrões, jornalismo sináptico.
Ao iniciar o blog, queria me atualizar, aprender a usar ferramentas digitais e fazer contato com vida inteligente na galáxia pós-Gutenberg (ela existe!). Em sala de aula, tinha a convicção de que, mais do que aprender técnicas e cartilhas, era urgente assimilar um método de aprender a aprender, ou seja, os alunos teriam que desenvolver habilidades - e curiosidade - para se adaptarem a mudanças que viriam numa velocidade que minha geração adjetivaria com um clichê.
Nos últimos meses, porém, outras atividades me roubaram o tempo dedicado ao RP. Resistindo à tentação de requentar o caldo insosso da opinião rasteira (não obstante ser esta a dieta na maioria dos botequins cibernéticos) e recusando carregar o fardo do abandono, do esquecimento, só me resta justificar o silêncio aos meus caríssimos argonautas.
Voltamos em breve. Saravá, Hermes!
Foto: Trimegistro, no Centro.



